Acordou cedo, ao primeiro toque do despertador. Não aguentava a ansiedade de sair logo do avião. Sim, porque achava imbecil essa vontade que as pessoas tem de ‘andar de avião’. Quase tão imbecil quanto a piada que diz que de avião quase não se anda, é bem pouquinho só na pista. Avião é meio de transporte, serve pra levar do ponto A ao ponto B e quem utiliza anseia por chegar no ponto B, não pelo trajeto. Ou é imbecil, pensava. E também porque passava mal no vôo, mas usava sempre o outro argumento.

Foi buscá-la de táxi logo cedo, bem cedo mesmo. Saiu sem nem tomar café da manhã. Sempre quis ter quem o acompanhasse até o aeroporto. Adorava esse clichê. Naquele dia ela prometeu ir junto. Esperou na porta e deu abraço e beijo de bom dia. Já havia dito em outra ocasião que ela tinha cheiro de café da manhã e que, de algum modo, ela se assemelhava às primeiras coisas do dia. O primeiro cigarro. Não pôde evitar não fumá-lo até que a visse, pra ver pela nãoseiqualésima vez se era mesmo a mesma coisa.

Ela entrou no taxi morrendo de sono e começando a sentir os analgésicos que tomara para a dor de cabeça fazerem efeito. Deitou em seu peito e dormiu o caminho todo ganhando carinho com a ponta dos dedos em torno da orelha enquanto ele fingia calma evitando olhar muitas vezes para o celular.

A despedida no aeroporto, pela qual também anseava como se fosse um teste pelo qual todo casal precisa passar (não houve esse teste em seu relacionamento e já se viu no que deu) foi impedida por complicações alheias a seu controle e algo sobre homologação de não sei qual lei.

Não embarcou, sequer passou do check-in, mas foi o bastante terem rido juntos da tragédia que lhe impediu as férias. E não foi teste algum, também. Ficou pensando na falta que teriam feito aquelas duas horas a mais com ela, rindo de bobagens no aeroporto cheio.