Ela estava distante.
Ele não esperava muita coisa, nem supunha que algo fosse acontecer naquela noite. Talvez ainda restasse alguma aura do namorado ali e imaginou que ela poderia não querer nada por conta disso — nunca sabia ao certo quão importante era isso, afinal — então concentrou-se apenas em cuidar da trilha sonora, tarefa essa em que parecia falhar miseravelmente de acordo com os sinais do grupo, dela inclusive. Mesmo assim, por um bom tempo continuou escolhendo as músicas que queria para compor o momento. O seu, que fique claro. Estava egoísta naquela noite.
Entrou no quarto e deitou ao seu lado. Estava ainda taquicárdico com o susto do barulho imenso que ela havia feito ao abrir a porta, o risco de alguém ter ouvido. Não podia estar ali. Deitou ao seu lado enquanto ela brincava nervosamente com o celular, em movimento repetitivo. Estava ansiosa por não sabia o quê, mas não era sexo. Pôs a mão sobre sua barriga e a deixou ali.
Estava nervoso. Mas não era como se estar ali significasse coisa demais. Não podia dizer que não a queria para si, para sempre, mas não era isso. Ou ao menos não só isso. Era fácil a querer, nem demandava esforço, era só consequência da vontade de entendê-la. Vontade essa que podia sim gerar situações estranhas, como ele deitar imóvel ao lado dela, com a mão sobre sua barriga, se perguntando no que diabos ela pensava enquanto mexia com o celular daquele jeito. Era um nervoso bom, quase livre de expectativas. Mas ainda assim só quase. No entanto, se havia aprendido algo nos últimos anos era como lidar com expectativas. E ela sabia disso.
Ela encostou nele a bunda e pressionou, puxando o corpo dele contra o seu pela cintura. Depois afastou. Depois voltou e virou e o sentou em cima, depois afastou. Ele viu que era guerra e mordia e apertava, lutava com as armas dela. Tinha tudo para perder. Sabia que perderia, mas não se importava. Até que estava gostando da luta dela contra si mesma e agora também contra ele. Estava gostando de ser o motivo e ao mesmo tempo se sentia mal por isso. Talvez esse sentir-se mal pelo conflito dela é que explicasse o nervoso mais que qualquer outra coisa.
Ergueu sua blusa até o colo, usando os dentes, e abriu o fecho do sutiã com uma mão, antes que ela terminasse de dizer um “não” meio reticente, cheirou seu colo e beijou seu pescoço. Ela afastou e ajeitou a roupa, depois voltou para cima.
Dali continuaram em preliminares, interrompidas de tantos em tantos minutos por tentativas dela de parar aquilo, nas quais ela não parecia aplicar muito empenho. Seu cheiro intoxicava. Desde que ela chegara, na verdade. Não era fácil sentir seu cheiro somente a cada muitos meses daquele jeito. Aspirava profundamente como quem se desespera para lembrar depois.
Então ela parou de um jeito que parecia definitivo, disse que era melhor dormir. Dormiram, cada um para um lado. Ela bem antes, já que ele gastou um bom tempo anotando mentalmente a coisa toda e arquivando com cuidado para futura referência. Vai saber quando teria de novo uma noite com ela tão grande quanto aquela. Só não superava aquela outra em que transaram no carro, em frente à casa dela.