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Latest Updates: serotonina RSS

  • trecker 23:58 on 26/04/2010 | 0 Permalink | Reply
    Tags: serotonina

    Ônibus relativamente cheio, 23:45, semáforo do cruzamento Paulista vs. Brigadeiro.

    Estou de pé e nos meus fones toca February Star há algum tempo. À minha frente, sentada, uma guria de olhos fechados e cara de sono, também com fones de ouvido.

    Poucos segundos depois que entra a pancadaria na música — a que, pelo menos eu, estou ouvindo — ela abre os olhos pra ver em que altura do caminho está e a primeira coisa que vê é minha cara de babaca olhando diretamente pra ela.

    Com tão pouco tempo pra decidir qual seria a reação menos idiota, acabo não evitando sorrir pela coincidência. Ela sorri amarelo, fecha a cara e em seguida sorri sincero de volta, já com o ônibus andando. Eu salto no primeiro ponto.

    Guria, vai demorar um tempo pra eu esquecer teu rosto.

     
  • trecker 01:49 on 15/03/2010 | 0 Permalink | Reply
    Tags: serotonina

    Procurava um livro. Não havia levado nenhum, como sempre levava em viagens. Chegara à cidade na noite anterior, depois de constatar que não aguentaria mais uma noite no calor de Campo Bom. Ficou tão agradecido pelo ar-condicionado no quarto que não foi a lugar algum na primeira noite, apenas pediu o jantar na pizzaria ao lado do hotel em que estava.

    Naquela noite, após voltar de Campo Bom, procurava um livro.

    – Não tem esse aqui com aquela outra capa?
    – Não tem, recolheram. Também não vou muito com a cara do Wagner Moura não.
    – Bom saber.
    – Mas você vai gastar pouco tempo vendo essa capa, é um livro bem rápido.

    Silêncio. Folheou o livro um pouco a procura de alguma descrição de cena convincente o bastante pra levar.

    – Ou se quiser fica só com o filme mesmo.

    Mais silêncio.

    – Se não viu também, já deve saber as falas todas, nem precisa.

    Três sentenças não solicitadas nem respondidas. Tirou os olhos do livro. Cabelo curto e escuro, pele clara, óculos e qual cor de olhos mesmo?

    – E você o que está lendo?
    – Bah — era o primeiro bah que chamava a atenção desde que desembarcara em Porto Alegre –, com os da faculdade mal dá tempo de escolher por conta própria.
    – Faz o que?
    – Pedagogia.
    – Entendo.
    – Também faz?
    – Não, desculpe. Não entendo então. Escolhe um.
    – Capaz!
    – ?
    – Nada. Conhece Oliver Sacks? Vem cá, olha esse.

    Mostra “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu”. O título causa impacto.

    – Que bom que gostou. Passo o seu e fecho meu turno, tá?
    – Tá. Demora?

    Perguntou se demorava para passar. Umas três pessoas na fila do caixa e os números do prospecto que precisava mandar para o escritório em São Paulo preocupavam.

    – Não, é rapidinho. Só trocar de roupa. Já arrumei tudo mais cedo.

    Respondeu sobre o tempo que levaria para fechar seu turno. Desistiu de prospecto e de escritório. Por pouco não desiste também do vôo de volta.

    – Você toma café?
    – Tomo sim. [sorriso]

    ~.~

    – Fechou, mas senta aqui mesmo.

    ~.~

    – Aí resolvi que gostava de criança.
    – Tá, mas só isso não explica. E nem precisa de explicação. Nem sei por que perguntei.
    – Pois é.

    ~.~

    – E o café, como fica?
    – Amanhã não abre de novo?
    – Abre, mas saio no mesmo horário.
    – Eu não. Venho mais cedo então.

    ~.~

    – Deve ser porque só teve filha mulher. Não sei explicar, minha mãe é assim às vezes.
    – A minha também e teve um casal, eu primeiro.
    – Ufa.

    ~.~

    – Olha, preciso mesmo ir pra aula. Você quer uma carona pra algum lugar?
    – Não precisa, eu tomo um taxi até o hotel.
    – Qual hotel? O Swan?
    – Isso, como sabe?
    – A faculdade é do lado. Vem.

    Foi.

    O livro ficou no carro, em uma outra carona, não lido. Nunca mais o viu.

     
  • trecker 01:50 on 09/03/2010 | 0 Permalink | Reply
    Tags: serotonina

    Acordou cedo, ao primeiro toque do despertador. Não aguentava a ansiedade de sair logo do avião. Sim, porque achava imbecil essa vontade que as pessoas tem de ‘andar de avião’. Quase tão imbecil quanto a piada que diz que de avião quase não se anda, é bem pouquinho só na pista. Avião é meio de transporte, serve pra levar do ponto A ao ponto B e quem utiliza anseia por chegar no ponto B, não pelo trajeto. Ou é imbecil, pensava. E também porque passava mal no vôo, mas usava sempre o outro argumento.

    Foi buscá-la de táxi logo cedo, bem cedo mesmo. Saiu sem nem tomar café da manhã. Sempre quis ter quem o acompanhasse até o aeroporto. Adorava esse clichê. Naquele dia ela prometeu ir junto. Esperou na porta e deu abraço e beijo de bom dia. Já havia dito em outra ocasião que ela tinha cheiro de café da manhã e que, de algum modo, ela se assemelhava às primeiras coisas do dia. O primeiro cigarro. Não pôde evitar não fumá-lo até que a visse, pra ver pela nãoseiqualésima vez se era mesmo a mesma coisa.

    Ela entrou no taxi morrendo de sono e começando a sentir os analgésicos que tomara para a dor de cabeça fazerem efeito. Deitou em seu peito e dormiu o caminho todo ganhando carinho com a ponta dos dedos em torno da orelha enquanto ele fingia calma evitando olhar muitas vezes para o celular.

    A despedida no aeroporto, pela qual também anseava como se fosse um teste pelo qual todo casal precisa passar (não houve esse teste em seu relacionamento e já se viu no que deu) foi impedida por complicações alheias a seu controle e algo sobre homologação de não sei qual lei.

    Não embarcou, sequer passou do check-in, mas foi o bastante terem rido juntos da tragédia que lhe impediu as férias. E não foi teste algum, também. Ficou pensando na falta que teriam feito aquelas duas horas a mais com ela, rindo de bobagens no aeroporto cheio.

     
  • trecker 19:43 on 06/03/2010 | 2 Permalink | Reply
    Tags: serotonina

    Havia acabado de sair do banho, abriu a porta e ele estava no computador, cuidando de uma meia dúzia de coisas do trabalho antes de viajar.

    – Pega ali aquela mochila pra mim?
    – Essa aqui ou a verde?
    – A verde. Traz também a escova.

    Ele largou o computador e sentou na cama. Nunca conseguiu se negar a assistir esse pequeno ritual pós-banho feminino, de se besuntar em cremes e cuidar do cabelo e se maquear. Em nenhum outro momento, para ele, era tão evidente a beleza e graça feminina. Quando não podia presenciar mas via o resultado do cuidado, fechava o mundo por um ou dois segundos e via, mentalmente, o processo todo.

    Ela se esticava e contorcia para hidratar as partes menos acessíveis do corpo. Chegou a pensar em oferecer ajuda, que talvez para ela somente notar que ele observava atentamente não seria atenção e carinho o bastante, mas não conseguiu e cedeu à vontade de só assistir. Ela resolveu que faria as unhas do pé (já havia cuidado das da mão na noite anterior, quando foram jantar frutos do mar na praia) e anunciou a decisão, respondida com um sorriso quase adolescente.

    Ela nunca disse, mas adorava saber que alguém assistia com tanta atenção, que alguém se importava tanto.

    Colocou o pé esquerdo na beira da cama, onde se sentava, e apoiou o rosto no joelho erguido. De vez em quando parava e olhava pra cima, porque a posição lhe forçava a coluna. Terminou, repetiu com o pé direito, terminou também e se deitou, estirada em estrela na cama. O procedimento havia lhe cansado os músculos do abdômen quase como a noite anterior cheia de movimento e respiração ofegante.

    Só então que ele se aproximou para dar um beijo desengonçado em sua testa, como se agradecesse pela apresentação, levantou-se e foi para a cozinha fazer um café.

    – Servida? Ficou meio aguado, me desconcentrei na medida.

     
  • trecker 02:59 on 22/02/2010 | 0 Permalink | Reply
    Tags: serotonina

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    Depois daquele dia, ficou alimentando o desejo e o carinho por algumas semanas. Mesmo com tanto tendo acontecido naquela noite, o que não lhe saía da memória era o beijo inesperado que ele havia roubado quando a deixou em casa pela manhã. Houveram outros beijos muito mais intensos, mas era aquele que lhe voltava à mente sempre que se permitia alguns segundos de pausa de qualquer assunto do qual precisava cuidar.

    Foi assim aquela semana inteira, mal trabalhou. Preparava tudo para o que tinha que fazer e parava antes de começar, sugada pela lembrança. Era aí que ele aparecia e pulava a janelinha onde conduziam um flerte bobo, sem sentido, que lhe enchia o estômago de borboletas e já começava a sentir pequenas cãibras nos músculos do rosto, de passar o dia sorrindo pra nada.

    Resolveu que não podia ser assim. Desejou que ele desaparecesse, que não tivesse mais assunto pra contar, que não tivesse mais textos pra ler e que não quisesse reler pela vigésima vez os textos todos que já havia lido. Que a janelinha não aparecesse mais.

    Lembrou então que todo problema só é tão grande quanto a atenção que damos a ele. Lembrou também que não havia nada em sua vida que a motivasse a alimentar novas paixões. Não que não houvesse lembrado antes, mas antes lembrava e deixava de lado, só pra se corroer em culpa depois. E essa raiva de si precisava de um fim.

    Todo problema só é tão grande quanto a atenção que damos a ele e esse problema não carecia de atenção, bastava olhar pro outro lado, bastava encarar a solução como simples, mesmo quando não fosse. Mesmo quando sentisse necessidade inexplicável de falar com ele só pra dar bom dia e contar que chateou-se quando viu que havia acabado o suco de laranja. Não seria ele a trazer mais suco quando voltasse do trabalho.

    Decidiu isso e contou a ele, porque é difícil não contar. Ele provocou e fez perguntas que não precisava fazer. Resolveu sair de casa pra esfriar a cabeça, ficou com uma pequena raiva daquilo.

    Depois voltou pra contar do cappuccino e das coisinhas de papelaria. Citou ‘The Clash’ no meio da conversa, de caso pensado, e ambos perceberam que seria uma desintoxicação difícil.

     
  • trecker 03:49 on 15/02/2010 | 1 Permalink | Reply
    Tags: serotonina

    Ela parecia bem. Ela sempre parece estar bem como nunca antes, mas há sempre algo nos dois segundos em que ela para e se retira da conversa que entrega o jogo.

    Naquela noite haviam abandonado o controle da trilha sonora e as caixas estavam ali imóveis. Deixei tocando Bon Iver e ameacei entrar para um banho. Ela ficou sentada na beira da piscina, me olhou curiosa. Respondi o que tocava, antes que ela perguntasse. Preparei uma seqüência que ilustrasse melhor o que era e entrei.

    Mais tarde tocou alguma outra coisa enquanto todo mundo falava alto e a peguei distante, chorando discretamente de alguma lembrança.  Falei qualquer coisa e ela riu. Foi o bastante pra querer causar mais pelo menos uma centena de outros sorrisos iguais, mas não era um bom dia e sabia que o dia seguinte também não seria. Deixei que o resto das pessoas a fizessem sorrir.

    A sensação era exatamente como a de querer fazer bem a alguém quando se está distante. Eu não estava ali. Não digo que não deveria estar, só não estava. A presença física ali me fazia bem, mas não estava.

    Na noite seguinte me faltou o sono e fiquei nos fones de ouvido. Em algum momento estiquei o braço e ela me pegou a mão.

    Algumas horas depois, já quase amanhecendo:

    – Você vai tomar uma distância segura de mim também, agora?

    Não estava preparado pra ser citado. Principalmente ao final dessa seqüência de fatos. Ri baixo de saber que ela lia e respondi que sim, fiz um carinho em sua nuca e deixei um beijo na testa, quase caindo da cama no caminho.

     
  • trecker 16:30 on 28/12/2009 | 2 Permalink | Reply
    Tags: serotonina

    Tem algo de inevitável em se apaixonar pela sua maneira de alongar as vogais ao falar, como quem está pensando em absolutamente tudo mesmo ao dizer uma sentença simples e o jeito como você usa os d’s e t’s antes dos seus i’s. Claro que isso não é exclusivamente seu, mas em você cai bem e por algum motivo me prendi a isso. Também pelo fato de que era necessária alguma desculpa para te romantizar além da óbvia profundidade de seus olhos azuis, o mais comum e delicioso dos clichês.

    Um dia uma guria disse que me ensinaria a não me apaixonar instantaneamente por mulheres de olhos azuis. Recusei educadamente, disse a ela que jamais teria interesse algum por uma aula com esse item no conteúdo programático.

    Claro que a desculpa do seu jeito de falar poderia ser melhor substituída pela intensidade com que te quero entender. Me é difícil aceitar que apenas o fato de falar pouco constitui o todo da explicação que justifica sua quase inexpressividade. Digo inexpressividade assim sem pudor porque a essa altura já ficou claro que é exatamente isso que mais me faz te querer entender, que me mantém te olhando depois de cada frase dita prolongando-se as vogais. Acompanhar pra qual lado você joga os olhos ao terminar de dizer o que, com esforço, resolveu compartilhar.

    Ao mesmo tempo em que me interesso tanto por saber tanto de você, me sentiria um completo imbecil se, assim out of the blue, te perguntasse. O que te faz explodir de felicidade? O que te enfurece e tira do prumo? O que diabos eu preciso fazer para te irritar a ponto de merecer um tapa na cara? Certamente ao responder você se quebraria de alguma forma irreparável e se tornaria outra por quem não me interesso. Mantenho então o desconhecimento enquanto encontro meios menos óbvios de sabê-la.

     
  • trecker 21:02 on 20/12/2009 | 2 Permalink | Reply
    Tags: serotonina

    Quando ela entrou, os dois pareceram tão surpresos que percebi imediatamente de quem se tratava. Graças também aos cachinhos de seu cabelo, já detalhadamente descritos em causos e histórias que ouvi. Ela cumprimentou a ambos, se apresentou a mim e, como em qualquer situação em que pessoas se encontram sem aviso, conversou um pouco ainda de pé.

    Não demorou muito pra resolver sentar. Ter tanto pra contar e tanto mais pra perguntar é natural a qualquer um que tenha ido morar fora do país há tanto tempo. No exato momento em que ela puxou a cadeira todo o universo perdeu significado diante da minha instantânea urgência de escrever, publicar e distribuir, ali mesmo naquele café, toda sua biografia.

    Pensei que situações assim exigiriam imensa cautela pra não parecer o sujeito mais inconveniente do mundo, mas não. Não existe isso de “interesse demais”.

     
  • trecker 01:24 on 07/12/2009 | 4 Permalink | Reply
    Tags: serotonina

    foto por pbeens

    Uma Doença crônica é uma doença que não é resolvida num tempo curto, definido usualmente em três meses. [Wikipédia]

    As doenças agudas são aquelas que têm um curso acelerado, terminando com convalescença ou morte em menos de três meses. [Wikipédia]

    Tenho a impressão (e provavelmente não sou o primeiro) de que paixões crônicas são tratadas com paixões agudas, em medida paliativa até que uma nova paixão crônica supere a anterior.

     
  • trecker 01:23 on 25/11/2009 | 0 Permalink | Reply
    Tags: serotonina

    [pra ser ler ouvindo Off he goes - Pearl Jam]

    Li hoje [ontem pros que entendem o relógio e o calendário] um post acerca do “um ano” de algo. Li assim sem dar muita atenção, na impressão de saber do que se trata. Sabia nada. Um ano tem significado. Dia desses completou-se um ano do fim de meu último relacionamento , depois de oito anos de meio. Me atingiu de algum modo, só não notei direito. Um ano é intervalo bom de comparar. É milestone.

    Comparando, em rascunho mental, dia 1 com dia 365 notei que desenvolvi um tipo estranho de alergia a intimidade. Não que não a tenha vivido e sentido seu cheiro no período, mas fica claro que sempre acabo evitando. Nem sei direito se é intencional. Só não parece haver outro curso de ação disponível. Também não me queixo, mas o gosto que isso deixa não deve ser bom. Me falta o paladar para saber com certeza experimental.

    Distância segura. Nem tão longe que não se possa ver, nem tão perto que se confundam as pernas.

    Foi assim, mais de uma vez, que vivi intimidade nesse período. Não chega a ser exatamente misantropia, é só um não responder quando ela pergunta no que está pensando, ou um desviar o olhar quando a paranóia leva a crer que ela está a ponto de descobrir. Como se algo inadmissível fosse sair escrito na tua testa se a deixares olhar por muito tempo. Não é difícil estar ali, junto, o difícil é voltar pra lá quando a mente foge.

    Ilustraria claramente a situação: a conversa fluindo cheia de riso e carinho, quando sem aviso uma força não convidada te suga a alma, que desce pelo chão como se ali houvesse um ralo, e te arremessa num lugar de onde tens tentado fugir. Fuga essa que explica exatamente o motivo de você estar, no momento anterior, envolvido na conversa cheia de riso e carinho da qual foi subtraído sem escolha.

    Distância segura.

    O que incomoda é continuar achando que fazes isso para protegê-la, quando estás é protegendo a ti mesmo. Somos uns fracotes.