Procurava um livro. Não havia levado nenhum, como sempre levava em viagens. Chegara à cidade na noite anterior, depois de constatar que não aguentaria mais uma noite no calor de Campo Bom. Ficou tão agradecido pelo ar-condicionado no quarto que não foi a lugar algum na primeira noite, apenas pediu o jantar na pizzaria ao lado do hotel em que estava.
Naquela noite, após voltar de Campo Bom, procurava um livro.
– Não tem esse aqui com aquela outra capa?
– Não tem, recolheram. Também não vou muito com a cara do Wagner Moura não.
– Bom saber.
– Mas você vai gastar pouco tempo vendo essa capa, é um livro bem rápido.
Silêncio. Folheou o livro um pouco a procura de alguma descrição de cena convincente o bastante pra levar.
– Ou se quiser fica só com o filme mesmo.
Mais silêncio.
– Se não viu também, já deve saber as falas todas, nem precisa.
Três sentenças não solicitadas nem respondidas. Tirou os olhos do livro. Cabelo curto e escuro, pele clara, óculos e qual cor de olhos mesmo?
– E você o que está lendo?
– Bah — era o primeiro bah que chamava a atenção desde que desembarcara em Porto Alegre –, com os da faculdade mal dá tempo de escolher por conta própria.
– Faz o que?
– Pedagogia.
– Entendo.
– Também faz?
– Não, desculpe. Não entendo então. Escolhe um.
– Capaz!
– ?
– Nada. Conhece Oliver Sacks? Vem cá, olha esse.
Mostra “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu”. O título causa impacto.
– Que bom que gostou. Passo o seu e fecho meu turno, tá?
– Tá. Demora?
Perguntou se demorava para passar. Umas três pessoas na fila do caixa e os números do prospecto que precisava mandar para o escritório em São Paulo preocupavam.
– Não, é rapidinho. Só trocar de roupa. Já arrumei tudo mais cedo.
Respondeu sobre o tempo que levaria para fechar seu turno. Desistiu de prospecto e de escritório. Por pouco não desiste também do vôo de volta.
– Você toma café?
– Tomo sim. [sorriso]
~.~
– Fechou, mas senta aqui mesmo.
~.~
– Aí resolvi que gostava de criança.
– Tá, mas só isso não explica. E nem precisa de explicação. Nem sei por que perguntei.
– Pois é.
~.~
– E o café, como fica?
– Amanhã não abre de novo?
– Abre, mas saio no mesmo horário.
– Eu não. Venho mais cedo então.
~.~
– Deve ser porque só teve filha mulher. Não sei explicar, minha mãe é assim às vezes.
– A minha também e teve um casal, eu primeiro.
– Ufa.
~.~
– Olha, preciso mesmo ir pra aula. Você quer uma carona pra algum lugar?
– Não precisa, eu tomo um taxi até o hotel.
– Qual hotel? O Swan?
– Isso, como sabe?
– A faculdade é do lado. Vem.
Foi.
O livro ficou no carro, em uma outra carona, não lido. Nunca mais o viu.