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  • trecker 01:58 on 26/05/2010 | 2 Permalink | Reply
    Tags: jazz

    Estive no Pizzarelli. O homem era maior que o palco. Em presença, digo. Nos intervalos entre uma sequência de excelentes músicas — dele ou de Duke Ellington, em homenagem a quem gravou disco recente — e a próxima, John falou o pouco que sabia falar em português, incluindo a sentença “ta na praia, ta redondo”. Contou também de sua guitarra, uma sete cordas afinada em A, e de como isso dispensava a presença de um baixista, que no caso era seu irmão skdkskskdidhahs.

    Em outra de suas conversas com o publico que assistia (maioria respeitosa e atenta) em silêncio quebrado apenas para aplauso ao fim de musicas e solos — entre eles um em que Pizzarelli esmerilhou um two hand tapping que até agora não entendi direito — convidou a todos para ir vê-los em Paraty, onde tocarão na próxima semana. Complementou o convite com um impecavelmente ítalo-americano “We’ll drink, we’ll swim, it will be BEAUTIFUL.” Yes, it will, Johnny-boy.

    O homem mandou um Beatles medley que quase dispensou a existência da banda inglesa, muito aplaudido. Depois disso contou que era de New Jersey — comparando o lugar a Campinas skdkskskdidhahs — e começou a tocar “I like Jersey best” e o fez imitando Paul Simon, Bruce Springsteen, Bob Dylan, Beach Boys, Billie Holiday (que não por coincidência era idêntica à sua versão de não me lembro quem, mas acho que Madeleine Peyroux), Lou Reed, James Taylor, The Police, The Who, Johnny Cash — pausa para não me aguentar de rir — entre outros que não me lembro. Finalizou sua grande piada com a versão de João Gilberto para a música. Essa eu mal consigo descrever, então deixo só um quote: “The light… I can hear it, turn it down.” Era como se John tivesse ido almoçar na casa dos tios carcamanos num domingo e todos nós ali estivéssemos assistindo enquanto ele tocava para alegrar os avós. Não importa se ele faz isso sempre.

    Encore: Só danço samba FODA PRA CARALHO cantada em português, Girl from Ipanema que ele fez virar Garota de Ipanema no finalzinho e entregou a cantoria para o público e uma Johnny One Note que foi muito bem usada pra dar vez aos solos de piano e de bateria.

    Saindo do lugar vi o filho do homem, que falava sobre como gosta de ver as apresentações do pai e como ele transformava a coisa num show de humor, ao que precisei emendar um “Yeah, fuck stand up comedy. Your father is a George Carlin who plays guitar.” Teria ficado e falado mais, but the boy had his bitches então fui embora. Não sem antes pedir pra uma das gurias penduradas no filhotão tirar uma foto.

     
  • trecker 16:08 on 22/05/2010 | 0 Permalink | Reply
    Tags: jazz

    Quinta fui ao show de Ahmad Jamal no Bridgestone Music Festival. Grande mestre. Já tinha visto um grande show de jazz antes, Jimmy Cobb em quinteto executando o “Kind of Blue”. A grande diferença de se ver um band leader no palco é perceber como ele conduz as coisas todas. Dava pra se sentir dentro do estúdio com os caras ao imaginar essa mesma dinâmica desenrolando-se numa sessão de gravação. Jamal chamava os solos um a um nos intervalos entre seus ataques ferozes ao piano. Improvisação violenta por toda a parte e quase não sobra nada de mim pra contar a história. Tinha um ingresso extra e levei o índio, cujos gritos de ovação e entusiasmo confirmaram minhas suspeitas de que seria um bom uso para a entrada.

    Show paralelo foi o do espetacular baterista do quarteto, Herlin Riley. O sujeito estava em chamas e mandava solos diante dos quais não se podia fazer nada além de olhar incrédulo e rir muito sem saber exatamente do quê. Riley surpreendia até mesmo na condução e marcação normal do tempo, quando ainda pegando fogo virava a cabeça de um lado para o outro, quase te obrigando a fazer o mesmo, coisa que não fazia para poder continuar olhando o homem transtornado mostrar o quanto entende de baquetas. Já havia notado antes o modo como a bateria não é o bastante pra esses caras e eles precisam acabar usando também as hastes de metal que servem pra deixá-la onde ela deve estar. Herlin conseguiria usar aquelas hastes pra fazer suco, se quisesse. Estava em casa, o homem. Não devo me recuperar tão cedo.

    Outra grande coisa que entendi no show foi o papel do percussionista, nesse caso Manolo Badrena. Criança barbada e grisalha, Manolo funcionava normalmente batucando e chacoalhando coisas durante tudo, mas era certamente interrompido por pensamentos como “esse momento merece um RÓINC,” “agora vai rolar um PENHENHÉIM” e “onde foi que eu deixei meu TÚIM?” Quando não achava seus barulhinhos, Badrena balbuciava algo de invocação yoruba ou coisa assim e dava gritinhos. Coisa fina.

    Tinha também James Cammack, que me pareceu bem ortodoxo no walking bass mas que mandava solos dedilhados impressionantes em velocidade turundundum esmerilhando muito no pizzicato (adoro pizzicato). Já disse no post anterior o quanto gosto do baixo. Cammack só fez confirmar isso com sua agilidade e incrível competência para antecipar as mudanças repentinas no que Jamal andava fazendo.

    Apesar de não ter reconhecido quase nada do que foi tocado ali, estou certo de que apreciei adeqüadamente. O ataque de Jamal ao piano impressionou quase tanto quanto a nítida sensação de que o velhote se divertia ali muito mais que o público, olhando e rindo pros companheiros no palco, parando sobriamente pra ouvir algum solo que havia acabado de pedir, falando alguma coisa que a gente não entendia. Você nunca sabia quando ele iria parar de repente uma sequência de acordes ou quando iria inundar o ambiente com uma sequência em loop quase infinito de notas. Logo que entrou no palco, comentei com o índio minha certeza de que ele dizia, ao apontar para a platéia meio surpreso com a recepção, a Herlin Riley “Quem é esse pessoal todo aí? Posso tocar O QUE EU QUISER pra eles?” Pode sim, Ahmad. Sempre.

    Alguma boa alma gravou um trecho do show. Vai:

     
  • trecker 07:17 on 19/05/2010 | 2 Permalink | Reply
    Tags: jazz

    Peguei o “Bass on Top”, disco do Paul Chambers, o cara do baixo no “Kind of Blue” AND no “Giant Steps” AND no “Cool Struttin’.” Já tinha ouvido falar que “Mr. PC” era para ele, mas daí esses dias um amigo me falou do “Bass on Top” e resolvi ir atrás do disco.

    Há algum tempo eu já havia decidido que gostava mais da conversa do baixo com o instrumento principal do que do walking bass puro. Gosto do som do contrabaixo. Daí o moleque (que fui saber agora ser um dos maiores nomes do baixo jazz) faz um disco em que é o baixo que conduz as melodias e assume a maior parte dos solos. E ainda consegue ser devastadoramente dramático com o arco logo na primeira faixa, “Yesterdays,” e logo em seguida te acalmar no pizzicato (grande palavra, usarei ao menos uma vez ao dia) em “You’d Be So Nice To Come Home To”, que eu só conhecia na voz do Sinatra.

    Depois uma sequência de músicas que eu já tinha visto no repertório de Miles Davis e que soam especialmente deliciosas tendo como lead o baixão: “Chasin’ the Bird,” “Dear Old Stockholm” e “The Theme.” Bom ver o approach todo do Miles trazido pra cá. Dois anos tocando com o mestre afetou Chambers, o que é muito boa coisa.

    “Bass on Top” é um disco QUIETO. Só baixo, piano, guitarra e bateria, mas não consegui nem sentir falta da CORNETAIADA. Senti falta foi de algo tão significativo quanto aquele dueto dele com Evans no começo de “So What”, mas deve ser porque fui ouvir esperando mais coisas como aquela. O disco ainda conta com Kenny Burrell, então se você já ouviu o “Midnight Blue” pode ir tranquilo esperando um pouco daquele caldo sabor Blue Note. Burrell é co-responsável por “Chamber Mates”, que compôs junto com Chambers e que fecha o disco deixando como única opção possível voltar para a primeira faixa e ouvir mais.

    O grande problema de descobrir um disco desses aos vinte e seis anos é que eu só tenho, em um cenário otimista, mais uns cinquenta para gastar ouvindo. Jazz não é uma coisa muito consumida em casa, então ou eu torço pra aparecer quem me indique algo ou eu fico caçando nas internets da vida. Se você ainda não conhece o disco, vai fundo. Se conhece diz aí o que acha.

    Dá pra ouvir o disco todo aí embaixo, ó:

    se você está lendo via feed, ou email, ou lynx, ouça o disco aqui.

    ERRATA: “Chasin’ the Bird” eu conheço é a versão que está no “From Cool to Bop”, por isso.

     
  • trecker 11:19 on 17/05/2009 | 0 Permalink | Reply
    Tags: jazz

    Fui ao Bridgestone Music Festival para ver Jimmy Cobb & The So What Band. Jimmy Cobb é o último membro vivo da banda que gravou o maior album já produzido: Kind Of Blue, de Miles Davis. O disco em questão completa 50 anos de existência esse ano e Cobb trouxe sua banda ao Brasil para as comemorações.

    Alguns chamaram a apresentação de  “engessada” por conta da fidelidade quase absoluta à obra original. Eu confesso que fui ao Citibank Hall sem saber ao certo se deveria esperar maior liberdade e improvisação ou não. Qualquer das opções me deixaria radiante, afinal não é todo dia que se tem a oportunidade de ver de perto a execução de tamanho classico. E de perto MESMO, como provam as fotos que tirei.

    Destaque especial para Buster Williams, contrabaixista que já tocou, além do próprio Miles, com senhores como Chet Baker, Sonny Stitt, Herbie Hancock. Indicações não faltam.

    Antes deles cantou René Marie, mas quem roubou a cena foi o trompetista Jeremy Pelt. Não tenho embasamento para julgar tecnicamente, mas Pelt me impressionou tanto que fui atrás de sua história e descobri que foi eleito Rising Star on the Trumpet pela revista Downbeat e pela Jazz Journalist Association por dois anos consecutivos. Diz ali que o sujeito é grande compositor, então de lição de casa fica descobrir suas três bandas: Creation, Noise e The Jeremy Pelt Quartet.