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olivetti blues.

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Melancholia

Foi lendo Angústia, de Graciliano Ramos, que entendi meu não saber o que dizer de Melancholia. O filme mostra e mostra mais, me bota observador. Não voyeur, não me bota ali vendo escondido. Empacota a coisa de um jeito doído e é uma dor que a curiosidade do escondido abafaria. Não é isso. Como observador, mas também não faz questão de esclarecer se observador bem-vindo, com alguma intimidade ou não. Porque pouco importa. Melancholia causa a mesma reação, o mesmo não saber o que fazer de uma versão ao vivo, o mesmo não saber se deve abraçar de um jeito meio agressivo a pessoa deprimida até que se consiga reduzir sua circulação nos braços ou meter logo uns tabefes inesperados na pessoa ansiosa, não saber esse que ainda me parece independer da intimidade ou do convite. Talvez isso que me emudeceu sobre o filme, esse esforço em decidir o que fazer depois de visto (o filme, o episódio de crise), essa inércia forçada. Impotência, não saber por onde começar a agir ao mesmo tempo em que agir parece urgente.

Angústia não. É pessoal, é de dentro, e chega a ajudar a entender. Ler Luís da Silva se projetando ao passado faminto de quinze anos antes, sofrendo com a diluição das paredes, toda uma série de delírios que amplificam tudo ao insuportável. O desespero palpável do personagem tentando se tranquilizar e esse mesmo esforço sendo talvez ainda mais exasperador que tudo o que lhe tira a tranquilidade. Primeira pessoa. As recorrências e os retornos, que te fazem sem perceber estar caçando ali desde as primeiras páginas do livro o momento anterior. Lê-se meio livro e ainda não se venceu as primeiras palavras. “Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente.”

Arrisco dizer que esse é um ponto em que claramente o livro vence o filme, se é que é válido o embate. Assim como sujeito se levantara havia cerca de trinta dias, o planeta também atinge a Terra no início do filme. Enquanto a abertura dramática do filme ao som de Wagner cumpre a função de apresentar os personagens, seu estado emocional no fim do mundo, no livro — e digo isso do meio da leitura, de modo que posso estar falando alguma bobagem —, fica clara a continuidade a partir da informação inicial, dando conta de que o sujeito levantou-se. Luís da Silva foi atingido por um planeta e tem que cuidar de seguir adiante, cambaleando e tropeçando nos móveis. Para Justine, o fim inevitável vem como alívio libertador e curativo. Isso e a capacidade que talvez tenha adquirido de lidar com o trágico, com o fim. Mas é fim. Chocam-se os planetas e Justine não terá que lidar com mais nada, solução mágica, Deus ex machina, ganhar na loto, suicide by cop.

A heroína do filme é Justine, que, por ter passado pela depressão, como disse Vladimir Safatle em seu artigo na FSP, “é a única que sabe como terminar, como se portar diante do fim do mundo.” Luís da Silva segue, a caminho da repartição, lesando, pensando em defuntos. Se há alguma conclusão a que posso chegar sobre Melancholia, acredito que essa, por ora.

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