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Sobre quando escrevi todo o Kind of Blue nas costas de uma guria
É como se eu tivesse ficado vinte dias olhando pra porta, esperando pra bater. Daí quando ela é aberta não tem muito como entrar na hora e eu te agarro ali mesmo e não largo por cerca de duas, três horas e quero ter a certeza de que tá tudo ali. Uma aspirada profunda na tua nuca que arrepia até a estante, a mesa, o passa-pratos, o meu lugar no sofá, a cadeira que virou minha, o meu canto na cama. É só depois da casa inteira se arrepiar que eu consigo pensar “hm, isso é bom, esse lugar é bom, acho que já dá pra entrar e depois a gente vê como é que faz pra sair”.
São vinte dias de sono. Vinte dias esperando são vinte dias de sono. Depois que eu chego são dias de amnésia e meu pai me liga no último deles pra saber se eu tô vivo e eu preciso pensar pra responder, porque no fundo não importa.
Nada importa, na verdade. O que importa é que tu foi ao mercado mais cedo naquele dia e fez compras. Tu saiu de casa e foi até o mercado pra comprar pão-presunto-queijo-café-suco-de-laranja-bolo-doce-de-leite e essas coisas estão ali na tua casa me esperando junto contigo. O que importa é que tu pensou que meu voo chegaria quinze minutos antes do previsto e mandou mensagem já desesperada quinze minutos depois e precisou deitar um pouco pra se acalmar. O que importa é que, quando cheguei, tu estava de pijama. Que conseguiu arrumar a máquina de lavar enquanto eu estava fora, olhando pra porta.
E a cama. Porra, o que importa é a cama. Ainda que tu tenha ido comigo até o aeroporto naquela primeira vez, a sensação é de que eu tinha te deixado na cama, esperando esse tempo todo. E aí nós decidimos que não era importante sair da cama e passamos o tempo todo ali. E depois tu deita nua em cima de mim e eu sinto teu peso inteiro no peito de um jeito bom e falamos sobre tudo e o que é dito não importa, desde que seja dito, e tua voz não pare nunca e que a conversa faça vezenquando com que tu levante a cabeça pra me olhar melhor ou pra sublinhar alguma careta que esteja fazendo por conta de algo que eu disse.
É esse levantar da cabeça e são essas caretas e é o teu peso no meu peito que me alimentam enquanto estou longe e fazem com que, mesmo distante, eu queira falar contigo tanto quanto possível, sobre tudo. É é isso o que faz com que eu consiga me sentir tão perto de ti ao conversar por escrito. Sorte minha conseguir deixar incrustadas no córtex essas imagens e o teu cheiro e o teu peso exato no meu peito.
Ainda nua, deitada em cima de mim, e uma parte da tua história me tira o chão e eu boto o Kind of Blue pra tocar. E tuas costas nuas estão ao alcance da mão e enquanto eu volto pro lugar tamborilando os dedos na tua omoplata, acompanhando o trompete, depois o sax, depois o baixo, tu não diz nada e só fica ali pensando não sei em quê. E o disco começa e termina sem que ninguém diga nada exceto quando, tentando esconder o nervoso, eu comento qualquer coisa sobre quando fui ao show do Jimmy Cobb, mas tu continua a não dizer nada e eu continuo dedilhando nas tuas costas.
[edição da missiva à guria, publicada com edição alternativa no Epic Shit]