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OMAR: Buenos Aires role model
Conheci jornaleiro local que fala “um pouco” (um muito) de português e gostaria demais de dispor de tempo e dinheiro para estudar.
Omar, a partir de agora constante da lista já vasta de role models, falou de semiótica, de cultura, de gramática e de literatura. Falou também da origem do seu idioma, citando feitos e nomes e datas, mas não considero falar tanto quanto considero lecionar. Devido ao escasso tempo de que dispunha (o procurei querendo saber onde se poderia dispor de café y baño, borracho que estava de vinho), mencionei possibilidade de se acompanhar cursos na UCA como ouvinte, sem que se precisasse pagar por isso. Falamos muito sobre a graça que existe no caminho, independente de qualquer obtenção de diploma e/ou reconhecimento ou ainda e especialmente conclusão sobre o assunto estudado. Foi esse mesmo o gatilho para que Omar me contasse de sua falta de tempo. O velho tem 63 anos e também diabetes. Acorda cedo para cuidar de casa e estar na banca de jornal (que não é sua) às onze da manhã. Costuma chegar de volta em casa entre duas e três da matina. Não pode abrir mão do emprego porque depende dele para se sustentar. Omar estudou apenas até o segundo grau, mas se fez imenso (e a mim minúsculo) ao falar de seus interesses e leituras.
Gasta seu pouco tempo livre lendo ali mesmo na banca muito mais que autores. Quando falamos de Umberto Eco, me confidenciou que não liga muito para nomes tanto quanto para assuntos e preocupações e intenções. Omar sabe escolher o que ler, eu ainda não aprendi e vou por indicação. O velho me elogiou por parar e conversar mesmo que precisando muito encontrar um banheiro e disse que a maioria dos turistas pedem informações e sequer percebem que ele esboçou português ou inglês ou francês ou japonês ou RUSSO na resposta. Respondi que o grande problema da maioria dos turistas é serem turistas. Sabedoria de Omar o levou a responder que não é nem culpa deles não saber direito o que buscar no lugar que visitam. Não sabem, Omar. Nunca sabem.
Todos os visitantes de Buenos Aires deveriam ir até sua banca e parar pra conversar. Ela fica na Carlos Pellegrini 291. Quando cheguei era cerca de uma da manhã e já não havia muito movimento, logo poucas interrupções. Omar estava já prestes a encerrar o expediente. É bem do lado do Obelisco, nem tem como errar.
Omar inspira.