Havia acabado de sair do banho, abriu a porta e ele estava no computador, cuidando de uma meia dúzia de coisas do trabalho antes de viajar.

– Pega ali aquela mochila pra mim?
– Essa aqui ou a verde?
– A verde. Traz também a escova.

Ele largou o computador e sentou na cama. Nunca conseguiu se negar a assistir esse pequeno ritual pós-banho feminino, de se besuntar em cremes e cuidar do cabelo e se maquear. Em nenhum outro momento, para ele, era tão evidente a beleza e graça feminina. Quando não podia presenciar mas via o resultado do cuidado, fechava o mundo por um ou dois segundos e via, mentalmente, o processo todo.

Ela se esticava e contorcia para hidratar as partes menos acessíveis do corpo. Chegou a pensar em oferecer ajuda, que talvez para ela somente notar que ele observava atentamente não seria atenção e carinho o bastante, mas não conseguiu e cedeu à vontade de só assistir. Ela resolveu que faria as unhas do pé (já havia cuidado das da mão na noite anterior, quando foram jantar frutos do mar na praia) e anunciou a decisão, respondida com um sorriso quase adolescente.

Ela nunca disse, mas adorava saber que alguém assistia com tanta atenção, que alguém se importava tanto.

Colocou o pé esquerdo na beira da cama, onde se sentava, e apoiou o rosto no joelho erguido. De vez em quando parava e olhava pra cima, porque a posição lhe forçava a coluna. Terminou, repetiu com o pé direito, terminou também e se deitou, estirada em estrela na cama. O procedimento havia lhe cansado os músculos do abdômen quase como a noite anterior cheia de movimento e respiração ofegante.

Só então que ele se aproximou para dar um beijo desengonçado em sua testa, como se agradecesse pela apresentação, levantou-se e foi para a cozinha fazer um café.

– Servida? Ficou meio aguado, me desconcentrei na medida.