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		<title>Venezuela ou quase</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Mar 2010 04:50:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>trecker</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Acordou cedo, ao primeiro toque do despertador. Não aguentava a ansiedade de sair logo do avião. Sim, porque achava imbecil essa vontade que as pessoas tem de &#8216;andar de avião&#8217;. Quase tão imbecil quanto a piada que diz que de avião quase não se anda, é bem pouquinho só na pista. Avião é meio de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Acordou cedo, ao primeiro toque do despertador. Não aguentava a ansiedade de sair logo do avião. Sim, porque achava imbecil essa vontade que as pessoas tem de &#8216;andar de avião&#8217;. Quase tão imbecil quanto a piada que diz que de avião quase não se anda, é bem pouquinho só na pista. Avião é meio de transporte, serve pra levar do ponto A ao ponto B e quem utiliza anseia por chegar no ponto B, não pelo trajeto. Ou é imbecil, pensava. E também porque passava mal no vôo, mas usava sempre o outro argumento.</p>
<p>Foi buscá-la de táxi logo cedo, bem cedo mesmo. Saiu sem nem tomar café da manhã. Sempre quis ter quem o acompanhasse até o aeroporto. Adorava esse clichê. Naquele dia ela prometeu ir junto. Esperou na porta e deu abraço e beijo de bom dia. Já havia dito em outra ocasião que ela tinha cheiro de café da manhã e que, de algum modo, ela se assemelhava às primeiras coisas do dia. O primeiro cigarro. Não pôde evitar não fumá-lo até que a visse, pra ver pela nãoseiqualésima vez se era mesmo a mesma coisa.</p>
<p>Ela entrou no taxi morrendo de sono e começando a sentir os analgésicos que tomara para a dor de cabeça fazerem efeito. Deitou em seu peito e dormiu o caminho todo ganhando carinho com a ponta dos dedos em torno da orelha enquanto ele fingia calma evitando olhar muitas vezes para o celular.</p>
<p>A despedida no aeroporto, pela qual também anseava como se fosse um teste pelo qual todo casal precisa passar (não houve esse teste em seu relacionamento e já se viu no que deu) foi impedida por complicações alheias a seu controle e algo sobre homologação de não sei qual lei.</p>
<p>Não embarcou, sequer passou do check-in, mas foi o bastante terem rido juntos da tragédia que lhe impediu as férias. E não foi teste algum, também. Ficou pensando na falta que teriam feito aquelas duas horas a mais com ela, rindo de bobagens no aeroporto cheio.  </p>]]></content:encoded>
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		<title>pedicure</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Mar 2010 22:43:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>trecker</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Havia acabado de sair do banho, abriu a porta e ele estava no computador, cuidando de uma meia dúzia de coisas do trabalho antes de viajar.
&#8211; Pega ali aquela mochila pra mim?
&#8211; Essa aqui ou a verde?
&#8211; A verde. Traz também a escova.
Ele largou o computador e sentou na cama. Nunca conseguiu se negar a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Havia acabado de sair do banho, abriu a porta e ele estava no computador, cuidando de uma meia dúzia de coisas do trabalho antes de viajar.</p>
<p>&#8211; Pega ali aquela mochila pra mim?<br />
&#8211; Essa aqui ou a verde?<br />
&#8211; A verde. Traz também a escova.</p>
<p>Ele largou o computador e sentou na cama. Nunca conseguiu se negar a assistir esse pequeno ritual pós-banho feminino, de se besuntar em cremes e cuidar do cabelo e se maquear. Em nenhum outro momento, para ele, era tão evidente a beleza e graça feminina. Quando não podia presenciar mas via o resultado do cuidado, fechava o mundo por um ou dois segundos e via, mentalmente, o processo todo. </p>
<p>Ela se esticava e contorcia para hidratar as partes menos acessíveis do corpo. Chegou a pensar em oferecer ajuda, que talvez para ela somente notar que ele observava atentamente não seria atenção e carinho o bastante, mas não conseguiu e cedeu à vontade de só assistir. Ela resolveu que faria as unhas do pé (já havia cuidado das da mão na noite anterior, quando foram jantar frutos do mar na praia) e anunciou a decisão, respondida com um sorriso quase adolescente.</p>
<p>Ela nunca disse, mas adorava saber que alguém assistia com tanta atenção, que alguém se importava tanto.</p>
<p>Colocou o pé esquerdo na beira da cama, onde se sentava, e apoiou o rosto no joelho erguido. De vez em quando parava e olhava pra cima, porque a posição lhe forçava a coluna. Terminou, repetiu com o pé direito, terminou também e se deitou, estirada em estrela na cama. O procedimento havia lhe cansado os músculos do abdômen quase como a noite anterior cheia de movimento e respiração ofegante.</p>
<p>Só então que ele se aproximou para dar um beijo desengonçado em sua testa, como se agradecesse pela apresentação, levantou-se e foi para a cozinha fazer um café.</p>
<p>&#8211; Servida? Ficou meio aguado, me desconcentrei na medida.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Hubble</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Feb 2010 07:28:19 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Ela estava deitada na rede, olhando para o céu. Ele sentado no chão, com a cabeça em seu colo. Ficava pensando se essa distância que permite sentir a respiração do outro não poderia também, de vez em quando, permitir que pensassem a mesma coisa ao mesmo tempo.
Tinham acabado de discutir assuntos íntimos que a fizeram [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ela estava deitada na rede, olhando para o céu. Ele sentado no chão, com a cabeça em seu colo. Ficava pensando se essa distância que permite sentir a respiração do outro não poderia também, de vez em quando, permitir que pensassem a mesma coisa ao mesmo tempo.</p>
<p>Tinham acabado de discutir assuntos íntimos que a fizeram chorar e pararam a conversa em um daqueles pontos nos quais a única resposta possível é um abraço e um carinho na nuca. Ele assim respondeu, deitou a cabeça em seu colo e puxou o celular para ver se esbarrava em um próximo assunto menos denso.</p>
<p>Ela olhava para o céu e pensava na porção ínfima que, mesmo nas noites sem nuvem do interior de São Paulo, se podia ver dele.</p>
<p>Ele ainda olhava o celular quando se deparou com uma sequência de imagens que ilustrava de forma aterradora sua insignificância perante a imensidão do universo.</p>
<p>Pensou em comentar com ela e mostrar a imagem quando ela se virou e confessou que a amedrontava o fato de não conseguir enxergar ou sequer saber da existência das estrelas mais distantes. Guardou o celular e seus olhos lacrimejaram com a certeza de que ainda estava ali e que ainda podia sentir sua respiração soprando em seu ombro.</p>
<p>Ela evitou olhar pro céu, passou os braços em torno da cabeça que repousava em seu colo, apertou em um abraço desajeitado e lhe fez um carinho na nuca.</p>
<p><a href="http://img39.imageshack.us/img39/8272/holyshitweresmall.jpg" rel="lightbox[308]"><img src="http://trecker.com.br/wp-content/uploads/2010/02/l_633_631_404A11B2-C32C-4B53-82F6-F5FBD6D6B90C.jpeg" width="200" height="200" alt="" class="alignnone " /></a></p>]]></content:encoded>
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		<title>Desintoxicação</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Feb 2010 05:59:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>trecker</dc:creator>
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Depois daquele dia, ficou alimentando o desejo e o carinho por algumas semanas. Mesmo com tanto tendo acontecido naquela noite, o que não lhe saía da memória era o beijo inesperado que ele havia roubado quando a deixou em casa pela manhã. Houveram outros beijos muito mais intensos, mas era aquele que lhe voltava à [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.flickr.com/photos/thespeak/222702469/" target="_blank"><img class="size-full wp-image-293 alignnone" style="margin: 10px;" title="222702469_e62d23700c_b" src="http://trecker.com.br/wp-content/uploads/2010/02/222702469_e62d23700c_b1.jpg" alt="222702469_e62d23700c_b" width="512" height="340" /></a></p>
<p>Depois daquele dia, ficou alimentando o desejo e o carinho por algumas semanas. Mesmo com tanto tendo acontecido naquela noite, o que não lhe saía da memória era o beijo inesperado que ele havia roubado quando a deixou em casa pela manhã. Houveram outros beijos muito mais intensos, mas era aquele que lhe voltava à mente sempre que se permitia alguns segundos de pausa de qualquer assunto do qual precisava cuidar.</p>
<p>Foi assim aquela semana inteira, mal trabalhou.  Preparava tudo para o que tinha que fazer e parava antes de começar, sugada pela lembrança. Era aí que ele aparecia e pulava a janelinha onde conduziam um flerte bobo, sem sentido, que lhe enchia o estômago de borboletas e já começava a sentir pequenas cãibras nos músculos do rosto, de passar o dia sorrindo pra nada.</p>
<p>Resolveu que não podia ser assim. Desejou que ele desaparecesse, que não tivesse mais assunto pra contar, que não tivesse mais textos pra ler e que não quisesse reler pela vigésima vez os textos todos que já havia lido. Que a janelinha não aparecesse mais.</p>
<p>Lembrou então que todo problema só é tão grande quanto a atenção que damos a ele. Lembrou também que não havia nada em sua vida que a motivasse a alimentar novas paixões. Não que não houvesse lembrado antes, mas antes lembrava e deixava de lado, só pra se corroer em culpa depois. E essa raiva de si precisava de um fim.</p>
<p>Todo problema só é tão grande quanto a atenção que damos a ele e esse problema não carecia de atenção, bastava olhar pro outro lado, bastava encarar a solução como simples, mesmo quando não fosse. Mesmo quando sentisse necessidade inexplicável de falar com ele só pra dar bom dia e contar que chateou-se quando viu que havia acabado o suco de laranja. Não seria ele a trazer mais suco quando voltasse do trabalho.</p>
<p>Decidiu isso e contou a ele, porque é difícil não contar. Ele provocou e fez perguntas que não precisava fazer. Resolveu sair de casa pra esfriar a cabeça, ficou com uma pequena raiva daquilo.</p>
<p>Depois voltou pra contar do cappuccino e das coisinhas de papelaria. Citou &#8216;The Clash&#8217; no meio da conversa, de caso pensado, e ambos perceberam que seria uma desintoxicação difícil.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Flume e duas noites</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Feb 2010 06:49:53 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Ela parecia bem. Ela sempre parece estar bem como nunca antes, mas há sempre algo nos dois segundos em que ela para e se retira da conversa que entrega o jogo.
Naquela noite haviam abandonado o controle da trilha sonora e as caixas estavam ali imóveis. Deixei tocando Bon Iver e ameacei entrar para um banho. Ela ficou sentada [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ela parecia bem. Ela sempre parece estar bem como nunca antes, mas há sempre algo nos dois segundos em que ela para e se retira da conversa que entrega o jogo.</p>
<p>Naquela noite haviam abandonado o controle da trilha sonora e as caixas estavam ali imóveis. Deixei tocando Bon Iver e ameacei entrar para um banho. Ela ficou sentada na beira da piscina, me olhou curiosa. Respondi o que tocava, antes que ela perguntasse. Preparei uma seqüência que ilustrasse melhor o que era e entrei.</p>
<p>Mais tarde tocou alguma outra coisa enquanto todo mundo falava alto e a peguei distante, chorando discretamente de alguma lembrança.  Falei qualquer coisa e ela riu. Foi o bastante pra querer causar mais pelo menos uma centena de outros sorrisos iguais, mas não era um bom dia e sabia que o dia seguinte também não seria. Deixei que o resto das pessoas a fizessem sorrir.</p>
<p>A sensação era exatamente como a de querer fazer bem a alguém quando se está distante. Eu não estava ali. Não digo que não deveria estar, só não estava. A presença física ali me fazia bem, mas não estava.</p>
<p>Na noite seguinte me faltou o sono e fiquei nos fones de ouvido. Em algum momento estiquei o braço e ela me pegou a mão.</p>
<p>Algumas horas depois, já quase amanhecendo:</p>
<p>&#8211; Você vai tomar uma <a href="http://trecker.com.br/distancia-segura/" target="_blank">distância segura</a> de mim também, agora?</p>
<p>Não estava preparado pra ser citado. Principalmente ao final dessa seqüência de fatos. Ri baixo de saber que ela lia e respondi que sim, fiz um carinho em sua nuca e deixei um beijo na testa, quase caindo da cama no caminho.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Norah Jones</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Jan 2010 12:55:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>trecker</dc:creator>
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		<category><![CDATA[memória]]></category>

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		<description><![CDATA[Há de se amar as belas cantoras. Essa em especial.
Deveria ser direito do homem, garantido na constituição, ser amado por uma cantora. Viver o risco de um dia ter uma música inspirada em si. Não dedicada, que as dedicadas são para os mortos e os distantes, mas inspirada. Inspirada naquela tarde de domingo em que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Há de se amar as belas cantoras. Essa em especial.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Deveria ser direito do homem, garantido na constituição, ser amado por uma cantora. Viver o risco de um dia ter uma música inspirada em si. Não dedicada, que as dedicadas são para os mortos e os distantes, mas inspirada. Inspirada naquela tarde de domingo em que chovia e você decidiu que enfrentaria o toda a armada espanhola se fosse isso necessário para levar a ela uma tábua com queijos e um vinho pro quarto, mas acabou fazendo dois sanduíches e servindo o que restava da coca-cola sem gás.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Você não saberia da música, porque se ela contasse perderia toda a graça. No outro dia você iria ouvi-la tocar naquele canto do boteco em que tomaram aquela caipirinha de pinga ruim e limão já meio passado. Nesse dia ela não tocaria a sua música. Você ouviria a música depois, muito depois, ela já longe e desencontrada. Ouviria porque um amigo seu baixou o emepetrês e no intervalo do poker lembrou que você havia saído com a cantora. A música veio no Random, o amigo não escolheria. Nem é tão amigo assim. Nem sabe se você ficou mal com o fim ou se foi coisa passageira. Nem amigo é, é só colega. Trabalha contigo, vocês falam coisas bem pessoais até, mas nem tanto.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Ouve a música e lembra de um monte de coisas. Lembra de viagens, de passeios, de noites planejadas pra serem inesquecíveis, de presentes escolhidos com tanta atenção a minúcias, de quase tudo. Ouve a música e se arrepende de, naquela tarde de domingo não ter ido comprar os frios. Porque somos burros assim mesmo.</div>
<p>Há de se amar as belas cantoras. Essa em especial.</p>
<p>Deveria ser direito do homem, garantido na constituição, ser amado por uma cantora. Viver o risco de um dia ter uma música inspirada em si. Não dedicada, que as dedicadas são para os mortos e os distantes, mas inspirada. Inspirada naquela tarde de domingo em que chovia e você decidiu que enfrentaria toda a armada espanhola se fosse isso necessário para levar a ela uma tábua com queijos e um vinho pro quarto, mas acabou fazendo dois sanduíches e servindo o que restava da coca-cola sem gás.</p>
<p>Você não saberia da música, porque se ela contasse perderia toda a graça. No outro dia você iria ouvi-la tocar naquele canto do boteco em que tomaram aquela caipirinha de pinga ruim e limão já meio passado. Nesse dia ela não tocaria a sua música. Você ouviria a música depois, muito depois, ela já longe e desencontrada. Ouviria porque um amigo seu baixou o emepetrês e no intervalo do poker lembrou que você havia saído com a cantora. A música veio no Random, o amigo não escolheria. Nem é tão amigo assim. Nem sabe se você ficou mal com o fim ou se foi coisa passageira. Nem amigo é, é só colega. Trabalha contigo, vocês falam coisas bem pessoais até, mas nem tanto.</p>
<p>Ouve a música e lembra de um monte de coisas. Lembra de viagens, de passeios, de noites planejadas pra serem inesquecíveis, de presentes escolhidos com tanta atenção a minúcias, de quase tudo. Ouve a música e se arrepende de, naquela tarde de domingo não ter ido comprar os frios. Porque somos burros assim mesmo.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Inexpressiva</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Dec 2009 19:30:54 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[serotonina]]></category>

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		<description><![CDATA[Tem algo de inevitável em se apaixonar pela sua maneira de alongar as vogais ao falar, como quem está pensando em absolutamente tudo mesmo ao dizer uma sentença simples e o jeito como você usa os d&#8217;s e t&#8217;s antes dos seus i&#8217;s. Claro que isso não é exclusivamente seu, mas em você cai bem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tem algo de inevitável em se apaixonar pela sua maneira de alongar as vogais ao falar, como quem está pensando em absolutamente tudo mesmo ao dizer uma sentença simples e o jeito como você usa os d&#8217;s e t&#8217;s antes dos seus i&#8217;s. Claro que isso não é exclusivamente seu, mas em você cai bem e por algum motivo me prendi a isso. Também pelo fato de que era necessária alguma desculpa para te romantizar além da óbvia profundidade de seus olhos azuis, o mais comum e delicioso dos clichês.</p>
<p>Um dia uma guria disse que me ensinaria a não me apaixonar instantaneamente por mulheres de olhos azuis. Recusei educadamente, disse a ela que jamais teria interesse algum por uma aula com esse item no conteúdo programático.</p>
<p>Claro que a desculpa do seu jeito de falar poderia ser melhor substituída pela intensidade com que te quero entender. Me é difícil aceitar que apenas o fato de falar pouco constitui o todo da explicação que justifica sua quase inexpressividade. Digo inexpressividade assim sem pudor porque a essa altura já ficou claro que é exatamente isso que mais me faz te querer entender, que me mantém te olhando depois de cada frase dita prolongando-se as vogais. Acompanhar pra qual lado você joga os olhos ao terminar de dizer o que, com esforço, resolveu compartilhar.</p>
<p>Ao mesmo tempo em que me interesso tanto por saber tanto de você, me sentiria um completo imbecil se, assim <em>out of the blue</em>, te perguntasse. O que te faz explodir de felicidade? O que te enfurece e tira do prumo? O que diabos eu preciso fazer para te irritar a ponto de merecer um tapa na cara? Certamente ao responder você se quebraria de alguma forma irreparável e se tornaria outra por quem não me interesso. Mantenho então o desconhecimento enquanto encontro meios menos óbvios de sabê-la.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Impublicável</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Dec 2009 16:19:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>trecker</dc:creator>
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		<category><![CDATA[lobo frontal]]></category>

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		<description><![CDATA[Acordei sozinho às três da manhã pensando não em você, mas em uma história que precisava ser contada. Resolvi escrever. Puxei o telefone e abri uma nota. Acendi um cigarro que fumou-se sozinho. Digitei furiosamente um texto que no fim julguei pessoal demais pra se publicar.
Li sem o cuidado do autor e perdi completamente o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Acordei sozinho às três da manhã pensando não em você, mas em uma história que precisava ser contada. Resolvi escrever. Puxei o telefone e abri uma nota. Acendi um cigarro que fumou-se sozinho. Digitei furiosamente um texto que no fim julguei pessoal demais pra se publicar.</p>
<p>Li sem o cuidado do autor e perdi completamente o sono. Quis sua cama lilás desarrumada e seus pés, de meias mesmo no verão, apertando os meus. Não fosse a vida tão real quanto é teria me metido em um ônibus e corrido para sua casa como se fossem as ultimas horas de existência de vida na Terra, mas tem que trabalhar amanhã.</p>
<p>Acendi outro cigarro e tentei normalizar o texto para publicação mas como é que se faz se normal perde a graça? Substituí palavras mas não mudou muita coisa e sei que não é só porque fui eu quem escreveu. Na metade do cigarro concluí que tinha graça só pra você o jeito era voltar o texto para o que era e usar como carta.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Cachinhos</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Dec 2009 00:02:24 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[adrenalina]]></category>
		<category><![CDATA[dopamina]]></category>
		<category><![CDATA[serotonina]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando ela entrou, os dois pareceram tão surpresos que percebi imediatamente de quem se tratava. Graças também aos cachinhos de seu cabelo, já detalhadamente descritos em causos e histórias que ouvi. Ela cumprimentou a ambos, se apresentou a mim e, como em qualquer situação em que pessoas se encontram sem aviso, conversou um pouco ainda [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando ela entrou, os dois pareceram tão surpresos que percebi imediatamente de quem se tratava. Graças também aos cachinhos de seu cabelo, já detalhadamente descritos em causos e histórias que ouvi. Ela cumprimentou a ambos, se apresentou a mim e, como em qualquer situação em que pessoas se encontram sem aviso, conversou um pouco ainda de pé.</p>
<p>Não demorou muito pra resolver sentar. Ter tanto pra contar e tanto mais pra perguntar é natural a qualquer um que tenha ido morar fora do país há tanto tempo. No exato momento em que ela puxou a cadeira todo o universo perdeu significado diante da minha instantânea urgência de escrever, publicar e distribuir, ali mesmo naquele café, toda sua biografia.</p>
<p>Pensei que situações assim exigiriam imensa cautela pra não parecer o sujeito mais inconveniente do mundo, mas não. Não existe isso de &#8220;interesse demais&#8221;.</p>]]></content:encoded>
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		<title>excerto [2]</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Dec 2009 12:41:53 +0000</pubDate>
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