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  • trecker 15:47 on 26/07/2010 | 0 Permalink | Reply
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    [texto originalmente publicado no Vitroleiros.org]

    Quando me pediram pra escolher um álbum (um só, que é como me pedir pra escolher um órgão pra me sobrar no corpo) adorei a idéia. Cerca de quinze segundos depois minha vontade era dar com a cabeça de quem pediu na quina de alguma parede. Ou reproduzir a cena de ‘American History X’. Sim, aquela cena. Suponho que boa parte dos que atenderem ao pedido farão uma introdução parecida, mas acho importante fazer também, de modo que entendam de uma vez por todas que um pedido desses não se faz nem pro pior inimigo.

    Dito isso, escolhi o álbum que mais ouvi. Não por ser o disco que mais amo, porque se fosse esse o critério ia gastar mais uns meses escolhendo e não sairia com texto nenhum. Era necessária uma lista que tivesse algum álbum no topo e odeio ordem alfabética, que não passa da eterna celebração da criança que aprende o alfabeto e repete pra mostrar a descoberta.

    Ten. Posso assobiar todas as suas faixas. De trás pra frente. Debaixo d’água. E ainda assim não tenho muito o que dizer sobre ele. Na Wikipedia tem um monte de infos, ó só.

    Pensei em fazer como o Renmero e contar uma história que de alguma forma envolvesse o disco. Não seria difícil. Amei ouvindo Ten, briguei, apanhei também, comprei meu primeiro ténis ouvindo Ten, com grana ganha trabalhando enquanto ouvia Ten. Cometi meu primeiro crime com Ten nos fones de ouvido. Destruí meu primeiro violão segundos depois de conseguir tocar Alive inteira pela primeira vez, sem o solo. Cantei Black no ouvido dela, no dela e no dela.

    Quando éramos guris, o Dênis tinha um violão e não sabia tocar, mas aprendeu o baixo de Even Flow. Conseguia tocar e cantar ao mesmo tempo (eu ainda não consigo) e era tão idiota e cheio de clichês quanto eu. Depois de uma festa, voltando pra casa não lembro de quem, sentamos ao lado de Sêo Pedro e tocamos Even Flow, em dueto violão, violaixo e voz. Nem morador de rua ele era, mas pelo menos não entendia inglês. Sorriu feliz e voltou pra dentro da casa que estava reformando. Sêu Pedro deve estar até hoje com cara de WTF, mas sem clichê babaca não se faz um adolescente, então I’ve been there, done that.

    Enfim, não vou escrever um texto em que a relação com o disco é TRICKY, mas também não vou contar uma história pra cada faixa. Nem lembro de todas as histórias pra poder contar, mas acredite: quando se ouve um único disco quase o tempo todo, se tem história pra cacete.

    O ponto é que o disco não termina. Até hoje ouço inteiro esperando que o disco termine. Até prometo que I’ll hold the pain, release me, mas it doesn’t and it goes right back to Once upon a time. Estou preso no repeat desde moleque.

    O leitor que é mais babaca vai notar que não mencionei todas as faixas do disco, mas adianto que não sei falar de música. “Writing about music is like dancing about architecture – it’s a really stupid thing to want to do.”
    –Elvis Costello (thank you NIGGA* for giving me the perfect quote).

    Se toda a história da indústria fonográfica estivesse a ponto de ser destruída e coubesse a mim escolher um disco pra salvar, seria o Ten. Não é me gabar, a ideia não é na esperança do mundo viver como eu vivi, é que a única vida que conheço é a minha e se ela foi boa o bastante em seus altos e baixos até o momento, foi em parte por conta desse disco. Ou no mínimo sob sua supervisão numa grande porção do tempo.

    Já disse que sou cheio de clichês, então cabe um aviso: Erros de digitação, gramática ou qualquer outra coisa que passaram batidos foi porque parei a revisão quando terminou Master/Slave. Nada mais clichê que usar só o tempo do disco pra escrever sobre ele e revisar.

     
  • trecker 02:28 on 16/07/2010 | 2 Permalink | Reply

    Conheci JORNALEIRO local que fala “um pouco” (um muito) de português e gostaria demais de dispor de tempo e dinheiro para estudar.

    OMAR, a partir de agora constante da lista já vasta de ROLE MODELS, falou de semiótica, de cultura, de gramática e de literatura. Falou também da origem do seu idioma, citando feitos e nomes e datas, mas não considero falar tanto quanto considero LECIONAR. Devido ao escasso tempo de que dispunha (o procurei querendo saber onde se poderia dispor de café y baño, borracho que estava de vinho), mencionei possibilidade de se acompanhar cursos na UCA como ouvinte, sem que se precisasse pagar por isso. Falamos muito sobre a graça que existe no CAMINHO, independente de qualquer obtenção de diploma e/ou reconhecimento ou ainda e especialmente CONCLUSÃO sobre o assunto estudado. Foi esse mesmo o gatilho para que Omar me contasse de sua falta de tempo. O velho tem 63 anos e também diabetes. Acorda cedo para cuidar de casa e estar na banca de jornal (que não é sua) às onze da manhã. Costuma chegar de volta em casa entre duas e três da matina. Não pode abrir mão do emprego porque depende dele para se sustentar. Omar estudou apenas até o segundo grau, mas se fez IMENSO (e a mim minúsculo) ao falar de seus interesses e leituras.

    Gasta seu pouco tempo livre lendo ali mesmo na banca muito mais que autores. Quando falamos de Umberto Eco, me confidenciou que não liga muito para autores tanto quanto para assuntos e preocupações e intenções. Omar sabe escolher o que ler, eu ainda não aprendi e vou por indicação. O velho me elogiou por parar e conversar mesmo que precisando muito encontrar um banheiro e disse que a maioria dos turistas pedem informações e sequer percebem que ele esboçou português ou inglês ou francês ou japonês ou RUSSO na resposta. Respondi que o grande problema da maioria dos turistas é serem turistas. Sabedoria de Omar o levou a responder que não é nem culpa deles não saber direito o que buscar no lugar que visitam. Não sabem, Omar. Nunca sabem.

    Todos os visitantes de Buenos Aires que merecem o título de GENTE deveriam ir até sua banca e parar pra conversar. Ela fica na Carlos Pellegrini 291. Quando cheguei era cerca de uma da manhã e já não havia muito movimento, logo poucas interrupções. Omar estava já prestes a encerrar o expediente. É bem do lado do Obelisco, então nem tem muito como errar. Procure o homem abaixo, esse é Omar, que hesitou me permitir a foto por não querer assustar as pessoas. Eu disse que era só pra que mais gente pudesse APRENDER com ele e reconhecer o responsável pela PALESTRA. Ele riu e me elogiou o aparelho utilizado para a captura da imagem.

    Omar inspira.

     
  • trecker 03:37 on 13/07/2010 | 1 Permalink | Reply

    Ela lê.

    “Ela lê” significa que ela lê algo que não Harry Potter (pouco importa se ela leu ou não, se gostou ou não), que ela vai provar que você falou merda quando você o fizer e (há sempre esperança) mesmo quando você não o fizer. Overhustling. Que ela vai te explicar alguma coisa sobre a qual você jamais se imaginou curioso, que você vai ter vontade de comentar o que foi explicado quando estiver com comparsas e que você vai falhar por não ter quase nada do que tornava aquilo interessante.

    Devia ter mais delas, às dúzias, pagando compras nos caixas de supermercado de bairro ou tropeçando em algo nos ônibus de linha ou pedindo informação bem na frente da tua casa.

    Vide Rollins.

     
    • otubo 16:43 on 13/07/2010 Permalink | Reply

      O que vale numa foto não é a câmera, nem a tecnologia e nem a lente mega-boga. O que vale é o olhar e a vontade de se expressar. Nisso ganhou pontos, as duas mostram a sua paixão pela guria sequer conhecida. Keep on working, fella. :-)

  • trecker 07:45 on 30/05/2010 | 0 Permalink | Reply

    – (…) então nem dá tempo de nada, daí eu continuei me afundando na merda que havia arrumado pra mim mesma e não sei mais sair dela porque não sei mais ficar sozinha.

    – …

    – Queria te ver outra vez. O que você vai fazer no feriado?

    Eu vou infelizmente pensar sobre essa conversa enquanto sustento outra coisa que não deveria sustentar. Ou então eu vou pra casa de comparsas e falar sobre cagadas em que ando me metendo e talvez essa conversa venha à tona e eu fale sobre como essas coisas são engraçadas e sobre como elas se invertem e sobre como não sobrou nada pra sentir falta, como se saudade funcionasse exatamente como gravidade, e sobre como eu gostaria de sentir sua falta, de ter motivos pra sentir sua falta, de que os motivos pra sentir sua falta não fossem tão voláteis. E depois provavelmente eu acabarei sustentando o que não deveria sustentar do mesmo jeito, mas prefiro isso a te ver nesse estado.

    – Nada. Tem uma coisa lá em Santa Rita, lembra? Talvez eu vá.

    – Entendi.

    Não, não entendeu porra nenhuma, mas assim já serve. Não quero que você entenda.

     
  • trecker 01:58 on 26/05/2010 | 2 Permalink | Reply
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    Estive no Pizzarelli. O homem era maior que o palco. Em presença, digo. Nos intervalos entre uma sequência de excelentes músicas — dele ou de Duke Ellington, em homenagem a quem gravou disco recente — e a próxima, John falou o pouco que sabia falar em português, incluindo a sentença “ta na praia, ta redondo”. Contou também de sua guitarra, uma sete cordas afinada em A, e de como isso dispensava a presença de um baixista, que no caso era seu irmão skdkskskdidhahs.

    Em outra de suas conversas com o publico que assistia (maioria respeitosa e atenta) em silêncio quebrado apenas para aplauso ao fim de musicas e solos — entre eles um em que Pizzarelli esmerilhou um two hand tapping que até agora não entendi direito — convidou a todos para ir vê-los em Paraty, onde tocarão na próxima semana. Complementou o convite com um impecavelmente ítalo-americano “We’ll drink, we’ll swim, it will be BEAUTIFUL.” Yes, it will, Johnny-boy.

    O homem mandou um Beatles medley que quase dispensou a existência da banda inglesa, muito aplaudido. Depois disso contou que era de New Jersey — comparando o lugar a Campinas skdkskskdidhahs — e começou a tocar “I like Jersey best” e o fez imitando Paul Simon, Bruce Springsteen, Bob Dylan, Beach Boys, Billie Holiday (que não por coincidência era idêntica à sua versão de não me lembro quem, mas acho que Madeleine Peyroux), Lou Reed, James Taylor, The Police, The Who, Johnny Cash — pausa para não me aguentar de rir — entre outros que não me lembro. Finalizou sua grande piada com a versão de João Gilberto para a música. Essa eu mal consigo descrever, então deixo só um quote: “The light… I can hear it, turn it down.” Era como se John tivesse ido almoçar na casa dos tios carcamanos num domingo e todos nós ali estivéssemos assistindo enquanto ele tocava para alegrar os avós. Não importa se ele faz isso sempre.

    Encore: Só danço samba FODA PRA CARALHO cantada em português, Girl from Ipanema que ele fez virar Garota de Ipanema no finalzinho e entregou a cantoria para o público e uma Johnny One Note que foi muito bem usada pra dar vez aos solos de piano e de bateria.

    Saindo do lugar vi o filho do homem, que falava sobre como gosta de ver as apresentações do pai e como ele transformava a coisa num show de humor, ao que precisei emendar um “Yeah, fuck stand up comedy. Your father is a George Carlin who plays guitar.” Teria ficado e falado mais, but the boy had his bitches então fui embora. Não sem antes pedir pra uma das gurias penduradas no filhotão tirar uma foto.

     
    • tiagón 14:05 on 26/05/2010 Permalink | Reply

      o Pizza vai acabar se mudando pro Brasil.
      quer dizer, se tudo der errado pra ele. hah.
      tive a sorte de vê-lo ao vivo aqui em POA há uns anos atrás. toca muito e ainda tem carisma. ESSA é a combinação.

      (e tu já deve saber, mas caso — essa versão ‘bagunçada’ de Jersey Best também está no “PS Mr. Cole”. sacumé, pra quando quiser relembrar.)

      • trecker 14:54 on 26/05/2010 Permalink | Reply

        Bom saber do PS Mr. Cole. Não tenho discos do Pizza. Em casa de pais tenho uns emepetrês avulsos dele tocando standards gravados em um cedê, baixados em tempos de P2P ainda (demorei pra conhecer o SoulSeek).

        Baixá-los-ei.

  • trecker 16:08 on 22/05/2010 | 0 Permalink | Reply
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    Quinta fui ao show de Ahmad Jamal no Bridgestone Music Festival. Grande mestre. Já tinha visto um grande show de jazz antes, Jimmy Cobb em quinteto executando o “Kind of Blue”. A grande diferença de se ver um band leader no palco é perceber como ele conduz as coisas todas. Dava pra se sentir dentro do estúdio com os caras ao imaginar essa mesma dinâmica desenrolando-se numa sessão de gravação. Jamal chamava os solos um a um nos intervalos entre seus ataques ferozes ao piano. Improvisação violenta por toda a parte e quase não sobra nada de mim pra contar a história. Tinha um ingresso extra e levei o índio, cujos gritos de ovação e entusiasmo confirmaram minhas suspeitas de que seria um bom uso para a entrada.

    Show paralelo foi o do espetacular baterista do quarteto, Herlin Riley. O sujeito estava em chamas e mandava solos diante dos quais não se podia fazer nada além de olhar incrédulo e rir muito sem saber exatamente do quê. Riley surpreendia até mesmo na condução e marcação normal do tempo, quando ainda pegando fogo virava a cabeça de um lado para o outro, quase te obrigando a fazer o mesmo, coisa que não fazia para poder continuar olhando o homem transtornado mostrar o quanto entende de baquetas. Já havia notado antes o modo como a bateria não é o bastante pra esses caras e eles precisam acabar usando também as hastes de metal que servem pra deixá-la onde ela deve estar. Herlin conseguiria usar aquelas hastes pra fazer suco, se quisesse. Estava em casa, o homem. Não devo me recuperar tão cedo.

    Outra grande coisa que entendi no show foi o papel do percussionista, nesse caso Manolo Badrena. Criança barbada e grisalha, Manolo funcionava normalmente batucando e chacoalhando coisas durante tudo, mas era certamente interrompido por pensamentos como “esse momento merece um RÓINC,” “agora vai rolar um PENHENHÉIM” e “onde foi que eu deixei meu TÚIM?” Quando não achava seus barulhinhos, Badrena balbuciava algo de invocação yoruba ou coisa assim e dava gritinhos. Coisa fina.

    Tinha também James Cammack, que me pareceu bem ortodoxo no walking bass mas que mandava solos dedilhados impressionantes em velocidade turundundum esmerilhando muito no pizzicato (adoro pizzicato). Já disse no post anterior o quanto gosto do baixo. Cammack só fez confirmar isso com sua agilidade e incrível competência para antecipar as mudanças repentinas no que Jamal andava fazendo.

    Apesar de não ter reconhecido quase nada do que foi tocado ali, estou certo de que apreciei adeqüadamente. O ataque de Jamal ao piano impressionou quase tanto quanto a nítida sensação de que o velhote se divertia ali muito mais que o público, olhando e rindo pros companheiros no palco, parando sobriamente pra ouvir algum solo que havia acabado de pedir, falando alguma coisa que a gente não entendia. Você nunca sabia quando ele iria parar de repente uma sequência de acordes ou quando iria inundar o ambiente com uma sequência em loop quase infinito de notas. Logo que entrou no palco, comentei com o índio minha certeza de que ele dizia, ao apontar para a platéia meio surpreso com a recepção, a Herlin Riley “Quem é esse pessoal todo aí? Posso tocar O QUE EU QUISER pra eles?” Pode sim, Ahmad. Sempre.

    Alguma boa alma gravou um trecho do show. Vai:

     
  • trecker 07:17 on 19/05/2010 | 2 Permalink | Reply
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    Peguei o “Bass on Top”, disco do Paul Chambers, o cara do baixo no “Kind of Blue” AND no “Giant Steps” AND no “Cool Struttin’.” Já tinha ouvido falar que “Mr. PC” era para ele, mas daí esses dias um amigo me falou do “Bass on Top” e resolvi ir atrás do disco.

    Há algum tempo eu já havia decidido que gostava mais da conversa do baixo com o instrumento principal do que do walking bass puro. Gosto do som do contrabaixo. Daí o moleque (que fui saber agora ser um dos maiores nomes do baixo jazz) faz um disco em que é o baixo que conduz as melodias e assume a maior parte dos solos. E ainda consegue ser devastadoramente dramático com o arco logo na primeira faixa, “Yesterdays,” e logo em seguida te acalmar no pizzicato (grande palavra, usarei ao menos uma vez ao dia) em “You’d Be So Nice To Come Home To”, que eu só conhecia na voz do Sinatra.

    Depois uma sequência de músicas que eu já tinha visto no repertório de Miles Davis e que soam especialmente deliciosas tendo como lead o baixão: “Chasin’ the Bird,” “Dear Old Stockholm” e “The Theme.” Bom ver o approach todo do Miles trazido pra cá. Dois anos tocando com o mestre afetou Chambers, o que é muito boa coisa.

    “Bass on Top” é um disco QUIETO. Só baixo, piano, guitarra e bateria, mas não consegui nem sentir falta da CORNETAIADA. Senti falta foi de algo tão significativo quanto aquele dueto dele com Evans no começo de “So What”, mas deve ser porque fui ouvir esperando mais coisas como aquela. O disco ainda conta com Kenny Burrell, então se você já ouviu o “Midnight Blue” pode ir tranquilo esperando um pouco daquele caldo sabor Blue Note. Burrell é co-responsável por “Chamber Mates”, que compôs junto com Chambers e que fecha o disco deixando como única opção possível voltar para a primeira faixa e ouvir mais.

    O grande problema de descobrir um disco desses aos vinte e seis anos é que eu só tenho, em um cenário otimista, mais uns cinquenta para gastar ouvindo. Jazz não é uma coisa muito consumida em casa, então ou eu torço pra aparecer quem me indique algo ou eu fico caçando nas internets da vida. Se você ainda não conhece o disco, vai fundo. Se conhece diz aí o que acha.

    Dá pra ouvir o disco todo aí embaixo, ó:

    se você está lendo via feed, ou email, ou lynx, ouça o disco aqui.

    ERRATA: “Chasin’ the Bird” eu conheço é a versão que está no “From Cool to Bop”, por isso.

     
    • Ariane 11:14 on 19/05/2010 Permalink | Reply

      Digamos que, graças a você, descobri [em perspectiva de vida] seis anos antes do esperado.

      E estou contente com o resultado.

    • Lini 16:06 on 24/05/2010 Permalink | Reply

      pra falar de musica tem que ter o feeling… te falei que vc tinha.

  • trecker 02:43 on 18/05/2010 | 1 Permalink | Reply
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    Guria eu não te amo. Não pretendo também. Ando numas de autosabotagem e não estou querendo amar ninguém. Às vezes acontece de eu acabar amando, mas é só porque sei que a coisa não tem muito pra onde ir e alguma versão de mim deve ter aprendido a gostar do gosto que fica quando a coisa não dá certo. Looking for love in all the wrong places.

    Chame de egoísmo se quiser, eu chamo de autosabotagem. Como o sujeito que entra na luta vendida pra perder. A minha grana por fora é poder reclamar depois e dizer com propriedade que ando fazendo um monte de cagadas.

    Não, guria, você não é um erro que eu estou cometendo. Você me achou na entressafra de cagadas, de modo que dá pra ser uma coisa mais leve do que geralmente eu faço ser. Só estou dizendo que não te amo. Não faz disso grande coisa, só não quero ter que dizer “não é você, sou eu o problema” pra mais ninguém.

    Até o maldito sermão é parte da autosabotagem. Não existe tal coisa como entressafra de grandes cagadas.

     
  • trecker 02:21 on 14/05/2010 | 1 Permalink | Reply
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    Só entende essa merda que me dá de vez em quando quem sente (com ou sem razão) que já foi, em algum momento, com alguma grande guria que te mostrou como é a vida, uma espécie cotidiana toma-ônibus-e-vai-ao-trabalho de supercouple. Rhett Butler e Scarlett O’Hara, em versões mais feias e pequenas.

    Você conhece o filme, a comparação é só pra poder usar o termo supercouple e o uso do termo só se justifica pela idéia de que as coisas e pessoas e histórias aconteciam ao redor e que influenciava a percepção de uma meia-duzia de outros desgraçados sobre como uma grande história deveria ser e que gerava expectativa em outros que não teus pais e os dela. Mais que isso é interpretação e interpretação is a bitch.

    O problema é que, logo depois, a única coisa que consigo pensar é que frankly, my dear, I don’t give a damn.

     
    • TAZ 21:41 on 17/05/2010 Permalink | Reply

      Fantástico o comparativo “Rhett Butler e Scarlett O’Hara, em versões mais feias e pequenas”.

  • trecker 03:51 on 05/05/2010 | 2 Permalink | Reply
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    Ela estava distante.

    Ele não esperava muita coisa, nem supunha que algo fosse acontecer naquela noite. Talvez ainda restasse alguma aura do namorado ali e imaginou que ela poderia não querer nada por conta disso — nunca sabia ao certo quão importante era isso, afinal — então concentrou-se apenas em cuidar da trilha sonora, tarefa essa em que parecia falhar miseravelmente de acordo com os sinais do grupo, dela inclusive. Mesmo assim, por um bom tempo continuou escolhendo as músicas que queria para compor o momento. O seu, que fique claro. Estava egoísta naquela noite.

    Entrou no quarto e deitou ao seu lado. Estava ainda taquicárdico com o susto do barulho imenso que ela havia feito ao abrir a porta, o risco de alguém ter ouvido. Não podia estar ali. Deitou ao seu lado enquanto ela brincava nervosamente com o celular, em movimento repetitivo. Estava ansiosa por não sabia o quê, mas não era sexo. Pôs a mão sobre sua barriga e a deixou ali.

    Estava nervoso. Mas não era como se estar ali significasse coisa demais. Não podia dizer que não a queria para si, para sempre, mas não era isso. Ou ao menos não só isso. Era fácil a querer, nem demandava esforço, era só consequência da vontade de entendê-la. Vontade essa que podia sim gerar situações estranhas, como ele deitar imóvel ao lado dela, com a mão sobre sua barriga, se perguntando no que diabos ela pensava enquanto mexia com o celular daquele jeito. Era um nervoso bom, quase livre de expectativas. Mas ainda assim só quase. No entanto, se havia aprendido algo nos últimos anos era como lidar com expectativas. E ela sabia disso.

    Ela encostou nele a bunda e pressionou, puxando o corpo dele contra o seu pela cintura. Depois afastou. Depois voltou e virou e o sentou em cima, depois afastou. Ele viu que era guerra e mordia e apertava, lutava com as armas dela. Tinha tudo para perder. Sabia que perderia, mas não se importava. Até que estava gostando da luta dela contra si mesma e agora também contra ele. Estava gostando de ser o motivo e ao mesmo tempo se sentia mal por isso. Talvez esse sentir-se mal pelo conflito dela é que explicasse o nervoso mais que qualquer outra coisa.

    Ergueu sua blusa até o colo, usando os dentes, e abriu o fecho do sutiã com uma mão, antes que ela terminasse de dizer um “não” meio reticente, cheirou seu colo e beijou seu pescoço. Ela afastou e ajeitou a roupa, depois voltou para cima.

    Dali continuaram em preliminares, interrompidas de tantos em tantos minutos por tentativas dela de parar aquilo, nas quais ela não parecia aplicar muito empenho. Seu cheiro intoxicava. Desde que ela chegara, na verdade. Não era fácil sentir seu cheiro somente a cada muitos meses daquele jeito. Aspirava profundamente como quem se desespera para lembrar depois.

    Então ela parou de um jeito que parecia definitivo, disse que era melhor dormir. Dormiram, cada um para um lado. Ela bem antes, já que ele gastou um bom tempo anotando mentalmente a coisa toda e arquivando com cuidado para futura referência. Vai saber quando teria de novo uma noite com ela tão grande quanto aquela. Só não superava aquela outra em que transaram no carro, em frente à casa dela.

     
    • Lini 09:08 on 05/05/2010 Permalink | Reply

      Arquivos mentais podem ser perigosos.

    • mirella 10:19 on 05/05/2010 Permalink | Reply

      nossa, muito bom. ja tinha adorado o primeiro. com esse, fantástico.