trecker

olivetti blues.

0 notes &

Abaixo do paralelo 30

O mais chegado sabe que, ao menos agora, não sou mais dado a grandes ambições. Em especial quando me penso abaixo do paralelo trinta: urbano ou rural, qualquer destino me parece imenso.

Isso para dizer que cada despedida, cada corrida de taxi em que a guria me acompanha da Cidade Baixa até o Salgado Filho me ocorre como momento decisivo. É quando o carro passa sob a placa que diz “Guaíba / Argentina / Uruguai” com uma seta indicativa. Toda vez.

Toda vez me parece estar prestes a sair, se eu não me segurar, um “Vira aqui” definitivo.

0 notes &

não vi Pearl Jam novamente e estou (de verdade) impressionado com a passividade com que lidei com a possibilidade de ver, desde que surgiu a notícia. [ou: La Possibilité d’une île — que também não li e estou (de verdade) impressionado com a passividade com que lidei com a possibilidade de ler, desde que soube da existência ao ler sobre disco do Iggy Pop inspirado por*.]









* não ouvi o disco do Iggy Pop inspirado por.

2 notes &

Melancholia

Foi lendo Angústia, de Graciliano Ramos, que entendi meu não saber o que dizer de Melancholia. O filme mostra e mostra mais, me bota observador. Não voyeur, não me bota ali vendo escondido. Empacota a coisa de um jeito doído e é uma dor que a curiosidade do escondido abafaria. Não é isso. Como observador, mas também não faz questão de esclarecer se observador bem-vindo, com alguma intimidade ou não. Porque pouco importa. Melancholia causa a mesma reação, o mesmo não saber o que fazer de uma versão ao vivo, o mesmo não saber se deve abraçar de um jeito meio agressivo a pessoa deprimida até que se consiga reduzir sua circulação nos braços ou meter logo uns tabefes inesperados na pessoa ansiosa, não saber esse que ainda me parece independer da intimidade ou do convite. Talvez isso que me emudeceu sobre o filme, esse esforço em decidir o que fazer depois de visto (o filme, o episódio de crise), essa inércia forçada. Impotência, não saber por onde começar a agir ao mesmo tempo em que agir parece urgente.

Angústia não. É pessoal, é de dentro, e chega a ajudar a entender. Ler Luís da Silva se projetando ao passado faminto de quinze anos antes, sofrendo com a diluição das paredes, toda uma série de delírios que amplificam tudo ao insuportável. O desespero palpável do personagem tentando se tranquilizar e esse mesmo esforço sendo talvez ainda mais exasperador que tudo o que lhe tira a tranquilidade. Primeira pessoa. As recorrências e os retornos, que te fazem sem perceber estar caçando ali desde as primeiras páginas do livro o momento anterior. Lê-se meio livro e ainda não se venceu as primeiras palavras. “Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente.”

Arrisco dizer que esse é um ponto em que claramente o livro vence o filme, se é que é válido o embate. Assim como sujeito se levantara havia cerca de trinta dias, o planeta também atinge a Terra no início do filme. Enquanto a abertura dramática do filme ao som de Wagner cumpre a função de apresentar os personagens, seu estado emocional no fim do mundo, no livro — e digo isso do meio da leitura, de modo que posso estar falando alguma bobagem —, fica clara a continuidade a partir da informação inicial, dando conta de que o sujeito levantou-se. Luís da Silva foi atingido por um planeta e tem que cuidar de seguir adiante, cambaleando e tropeçando nos móveis. Para Justine, o fim inevitável vem como alívio libertador e curativo. Isso e a capacidade que talvez tenha adquirido de lidar com o trágico, com o fim. Mas é fim. Chocam-se os planetas e Justine não terá que lidar com mais nada, solução mágica, Deus ex machina, ganhar na loto, suicide by cop.

A heroína do filme é Justine, que, por ter passado pela depressão, como disse Vladimir Safatle em seu artigo na FSP, “é a única que sabe como terminar, como se portar diante do fim do mundo.” Luís da Silva segue, a caminho da repartição, lesando, pensando em defuntos. Se há alguma conclusão a que posso chegar sobre Melancholia, acredito que essa, por ora.

Filed under filmes livros

2 notes &

Contemplativo e grato

“Todos os dias engrosso a lista de coisas sobre as quais não falo”
Chamfort

A guria diz que não, que não tem isso de entender melhor ou mais completamente. Às vezes (é raro) ela diz coisas mais elaboradas sobre significação etc. É claro que não tem. Pouco importa. Putamerda como eu queria, nem que apenas uma vez por semana, entender como ela.

Dessa vez foi o Melancholia, filme novo do Lars Von Trier. Passado pouco mais de um dia, não sei dizer o que entendi. Tem um monte de coisas que sinto que percebi, sobre as quais não me sinto capaz de falar. Todos os dias engrosso a lista de coisas sobre as quais não falo.

Fiz com ela um acordo. Ou achei que fiz, não me lembro. Não direi o que acho das coisas a menos que bang-bang-superprodução-blockbuster e equivalentes. Ou talvez até comente, mas será deslize e não deve ser levado a sério. Não me vejo exatamente capaz de comentar muito além de quão mais bem feita é uma explosão, comparando um filme com outro, sem me meter a relações outras que não com qualquer outra bobagem imbecilizada que eu tenha consumido. Não me sinto capaz de dizer algo não-óbvio — ou pior, não me sinto capaz de dizer absolutamente qualquer coisa, ainda que óbvia, sobre algo não-óbvio.

Filed under cotidiano malestar

0 notes &

Minúcias

Acordei tarde e tomei um café da manhã com a tia, que almoçava. Durante a refeição heterodoxa, fui perguntado sobre a tal social media e me senti importante, tendo inclusive aplicado leve forçação de barra num tímido esforço de venda pra ver se tirava uns caraminguás a mais na agência. Quando o assunto ficou no jeito de recitar o lero-lero que circunda os diferenciais do social enquanto mídia, apliquei um glorioso Luiz Antonio Galebe e mandei ver no argumento, interrompido apenas para um mepassosal e dois nãoquersalada.

Rumei para a Cultura do Conjunto Nacional, buscar livro que  encomendara e depois vim a descobrir que não existia mais no mercado livreiro. Sem saber, peguei um dos últimos disponíveis. Tinha marcado com um comparsa de ver o pouco que sobrou do Buena Vista Social Club e o SMS já apitava impaciente desde horas antes, quando recebido, alertando a iminência do acontecimento com cinco horas de antecedência e resumindo planos sobre como e quando. Precisava obter o livro antes, sabia que seria oprimido pelas estantes e gastaria a uma hora mínima browseando ali, então evitei responder muito além de “estarei lá.”

Livro pego e pago, tomei um café mais breve do que deveria com um casal de amigos que estava nas redondezas, durante o qual foram discutidos assuntos diversos, o mais peculiar deles tendo sido o futuro do bem-casado. Descobri que a receita só permite que sejam feitos cerca de vinte docinhos por batedeira, sendo esse o gargalo da produção e Fernanda seria capaz de produzir muitos mais caso tivesse uma boa meia-dúzia do maquinário. Parece também que o preparo envolve um bom passeio enquanto a massa toma jeito na geladeira, então Fernanda praticaria rolês com o amigo Gustalves mais tranqüila de ter menos saborosos  a fazer na volta, num cenário em que a escassez de batedeiras fosse um problema menor. Descobri também haver maneira de fazê-los que não envolve cortar a massa, fazendo assim com que os benditos fiquem mais cheios de graça. Não me lembro a técnica por ter sido abordada muito por alto e nem estou bem certo se entendi direito a parte de não envolver o corte, portanto me ignore o comentário. Apitou um SMS avisando a localização inexata do comparsa e sua guria — um bar na General Osório —, a atividade sendo executada nas imediações — uma roda de samba — e a cor das paredes externas — amarelas. Informações essas acompanhadas de um bom imperativo — VEM!.

Tomei um táxi com cheiro de madeira e motorista que ostentava quepe com os dizeres Chauffeur de alguma coisa que não consegui ler pelo retrovisor. Quando atingimos a Rio Branco, o chauffeur disse “Aqui é O Fim”, causando pequena comoção rapidamente eliminada com uma consulta ao mapa no celular, onde verifiquei estar apenas alguns passos distante de onde deveria estar, sendo o fim apenas conta das ruas estarem todas fechadas e só se poder passar a pé.

No breve caminho, um hobo — nicho da mendicagem paulistana cheio de estilo que usa poncho — me pediu um cigarro. Dei logo dois, ao que fui reverenciado como grande truta. Aconteceu também de outro SMS apitar, informando estarem eles agora embaixo do relógio, na frente da câmera. Por conta disso parei um marronzinho — denominação paulistana para os funcionários da Companhia de Engenharia de Tráfego — e perguntei do que se tratava “o relógio” e se existia mesmo uma câmera. Tendo ele confirmado tudo, pedi instruções do caminho até lá e as segui minuciosamente (“Só ir reto que você vai ver”).

Ao chegar fui confrontado com um problema imenso: tinha muito mais gente ali. Previsava dar jeito de localizar o casal, de modo que subi num gelo bahiano (ou seria baiano?) e mandei SMS para o comparsa solicitando o levantamento e sacudir dos braços de forma frenética. Na ausência de resposta, tentei atravessar a multidão a fim de chegar mais perto da câmera. No caminho ouvi toda sorte de impropérios, como é natural a quem tenta atravessar qualquer aglomeração, seja para se aproximar, para se afastar ou para se deslocar lateralmente a qualquer que seja a coisa à frente dela. Cheguei na câmera e não havia comparsa algum. Deixei a esperança ir embora sozinha enquanto me preparava para arriscar um caminho de volta para onde havia ar. Sociofobia, sacomé.

Andei até o que achava ser a metade do caminho de volta e fiquei preso, não dava mais. Se eu tentasse qualquer movimento, provavelmente alguém na borda da multidão cairia e seria pisoteada. Quiçá a borda toda, caindo fileira a fileira até que não sobrasse mais ninguém. Querendo evitar a tragédia, fiquei parado ali mesmo e guardei o sofrimento só pra mim. Me sentia o próprio Atlas. Em dado momento um gordo apareceu querendo muito sair dali, seu semblante de frustração me fez pensar que ele tinha constatado o mesmo que eu, que ele estava certo de que sua caminhada acabaria matando gente demais pra valer a pena. Mesmo assim ele andou. Talvez fosse mais egoísta que eu, talvez meu olhar esperançoso lhe tenha conferido alguma dose de confiança. Jamais saberei.

O gordo começou a andar e quando passou por mim, entrei no vácuo — aquele mesmo que os motociclistas aproveitam em estradas, quando atrás de um caminhão que segue na mó vula. Há de se amar os gordos querendo muito sair de multidões. Eles abrem bom espaço e dá até para você acender um cigarro ou espreguiçar-se enquanto os segue. Acabou que em algum ponto do caminho o gordo fez uma curva brusca para a esquerda e, como mágica, ao sair da minha frente expôs o comparsa e sua guria, ainda inédita para mim, por isso me apresentei primeiro e depois saudei o amigo como se ele fosse o penúltimo homem do mundo. Findado o abraço, ainda estavam lá os outros homens e mulheres todos, então era melhor que eu arrumasse um lugar em que coubesse.

Barbarito mandou benzasso e gostamos do show, o que não nos impediu de sentir falta de La Bayamesa. Fomos buscar uma cerveja no bar na General Osório, o amarelo com roda de samba, e quase ficamos, mas havia ainda outra combinação e tomamos o rumo da casa do índio.

No caminho discutimos coisas muitas, dentre as quais destaco a história do Silva. O Silva, apesar de ter sido apenas mais um entre muitos cuja estrela não brilhava, tinha a canção de funk feita em sua homenagem sendo tocada, no vagão em que estávamos, por um sanfoneiro. Foi preciso um bom esforço pra remover o earworm ao sair do transporte.

Índio queria comer japonesa, mas o comparsa temia as iguarias, então decidimos nos empapuçar com o excelentíssimo Oswaldo Aranha do Pirajá. Não sem antes longa e detalhada argumentação minha em prol da bisteca saurina servida no Sujinho, prato esse que era assunto na troca de mensagens desde a noite anterior. Conheci também Najláhijas — não sei escrever nem pronunciar seu nome ainda, mas garanto que é belo nome e em nada parecido com a injustiça que cometi ali —, sobre quem contarei mais adiante.

Durante a caminhada até o recinto, contei de como aquele trecho sempre fora para mim uma grande dungeon e que seria bom vencê-lo sob a luz da sobriedade para memorizar o caminho. Falou-se também de séries e da difícil tarefa de batizar o carro novo do comparsa. Arriscou-se um nome, mas não colou muito por conta da linha criativa adotada, uma mistura das letras contidas na placa do veículo com o grande seriado do momento, Treme, que conta muito do que importa saber enquanto mostra uma New Orleans três meses depois do desastre todo. Grande série. Reclamou-se também de como sempre que se quer atravessar uma avenida de forma transgressora (fora da faixa) há algum carro vindo devagar, gerando tensão capaz estragar tudo ou minar a elegância do ato exigindo uma corridinha. Notei que o carro em questão era conduzido por uma mulher balzaca que arriscava besuntar os lábios de batom enquanto em trânsito. Lembrei que quando eu dirigia, nem música podia haver. Congratulei a dona em pensamento, ninguém mais pareceu notar.

Os garçons paulistas do Pirajá, uma ode cara em demasia ao boteco carioca, representaram muito bem o característico desprezo pela praticidade dos garçons homenageados ao tentar espremer a nós cinco em uma mesícula quadrada mais ou menos do tamanho de um azulejo. Sorri pensando na cidade maravilhosa e apontei uma seqüência enorme de boas e espaçosas mesas que estavam livres bem ao lado dessa. O garçom demonstrou uma leve surpresa e nos acomodou em duas das mesas maiores, depois de juntá-las. Enquanto nos sentávamos, fez um breve discurso sobre como ali estaríamos mais tranqüilos e espaçosos e à vontade, fazendo parecer dele a idéia de mudarmos para lá. Eu como não tinha muito apego a ela, deixei que ele levasse a glória da decisão. Nem eu nem ele fomos parabenizados pela genialidade.

Descobri que tanto índio quanto o comparsa possuem o hábito de trocar correspondências com ídolos, prática que comparei às cartinhas enviadas para a Xuxa e por conta disso tomei grande lição ao saber que índio já havia sido respondido por sujeitos como Rollins e Ellis. Com isso, prometi que mandaria a Cormac McCarthy, mas recebi reprimenda alertando que estava almejando demais. Fiquei pensando qual seria a boa métrica para saber se eu já estava no ponto de tentar troca de correspondências com determinado ícone. Deve haver algum multiplicador que você deva usar em formula envolvendo sua idade e a do ídolo, o número de boas perguntas que você tem a fazer e quantos elementos diretamente relacionados ao destinatário influenciaram significativamente a sua vida. Nunca nem mandei cartinhas à Xuxa e esses caras estavam ousando níveis elevadíssimos como Jon Stuart! Estou bem atrasado nesse jogo de contabilizar correspondências trocadas, mas me alegrou ter gaguejado em conversa brevíssima, porém cara-a-cara, com Jimmy Cobb.

Na volta o comparsa e índio constataram a natureza humana toda quando as gurias iam mais adiante e falaram um pouco sobre isso.

Chegados de volta, o assunto me fez pensar que deveria tirar da mochila o livro e falamos um pouco sobre ele. Depois disso quem regeu como um paul mauriat o fluxo da conversa toda foi Nahuájlidas, em especial quando me perguntou se eu já havia lido Jimmy algo. Respondi que não e ela saiu da sala. Logo quando eu pensava ter ofendido a moça, ou no mínimo ter me provado indigno de sua atenção ela voltou com o tal Jimmy (que era Corrigan). Tratava-se de uma obra de quadrinhos que folheei rapidamente, mas gravei apenas um comentário de alguém sobre ser Ulysses em HQ, comentário esse que não me lembro se piada ou não. Vou ter que ir atrás da peça, só pra entender qual foi a associação que motivou Nahijavilas a me recomendar o petardo.

Exaltamos também a genialidade da medicina como um todo quando o assunto esbarrou na bulimia. Parece que há um sinal na anamnese — nunca tive  oportunidade de usar o termo e espero ter feito certo — em que se pode dizer se alguém sofre da doença ao notar marca de dente nas costas da mão da pessoa. O assunto começou pela inveja que tenho de gente que consegue ler em ônibus, mas Mari passava mal só de estar dentro do metrô quando mais nova e precisava parar de estação em estação para levar o passar mal às vias de fato e Nadjáya só conseguia curar suas dores de cabeça ao vomitar, coisa que para ela era muito dificil, então o assunto chegou em técnicas de vomitório, o que trouxe à pauta o “rolê da bulimia”, gíria engenhosamente empregada por Nadyahida e que nos fez rir um tempo. Mas então soubemos que ela havia uma vez bebido um litro de detergente no intuito de fazer a maior bolha de sabão do mundo, todavia ao invés de apenas molhar o canudo no composto resolvera sugar e aparentemente esquecera-se de estar sugando ao ver as nuvens no céu e continuara sugando então passou mal. Na verdade não sei se passou mal, pois quando contei de um amigo que bebera fluido de isqueiro ao tentar cuspir labareda de fogo ela se lembrou da The Clock e nos contou do neonazi com quem saíra uma vez e depois lembrou-se de um amigo que era punk e foi preso mas solto por um delegado que o confundira com skinheads com cuja causa simpatizava, o que nos levou a saber sobre o preconceito sofrido pela gente do sudeste em alguns lugares do nordeste e também da corrupção e coronelismo ainda existentes em determinados cantos de lá. Queria ter lembrado de tudo, haja visto que foi uma das conversas mais pitorescas que já tive em toda a vida, mas fica a amostra e a constatação de que Nadya é grande interlocutora, especialmente quando somada a Mari e comparsa. Índio há muito dormia e não contribuiu em nada para o falatório.

Quando infelizmente o sono começava a nos vencer, saímos e descemos a rua para esperar passar um táxi. Eu insisti que seria fácil conseguir um quando o comparsa sugeriu solicitar um por telefone, então me senti cheio de culpa quando ao chegarmos na rua de baixo notei apenas desolação e que haviam desligado até mesmo a lei, pois os semáforos só faziam piscar em amarelo. Portanto, tratei de ligar logo para o ponto e fui atendido por um taxista meio carente e melodramático que não nos queria vir buscar temendo o abandono. Jurei fidelidade e ele acabou convencido.

O trajeto para casa não merece destaque algum exceto pelo breve engarrafamento enfrentado em frente a um pub, onde alguns veículos encontravam-se imóveis e completamente isentos de quaisquer motoristas no espaço por onde os carros deveriam passar. Com pesar, me despedi de Mari e do comparsa, esperando pela combinação da bisteca.

Filed under cotidiano

0 notes &

Sobre quando escrevi todo o Kind of Blue nas costas de uma guria

É como se eu tivesse ficado vinte dias olhando pra porta, esperando pra bater. Daí quando ela é aberta não tem muito como entrar na hora e eu te agarro ali mesmo e não largo por cerca de duas, três horas e quero ter a certeza de que tá tudo ali. Uma aspirada profunda na tua nuca que arrepia até a estante, a mesa, o passa-pratos, o meu lugar no sofá, a cadeira que virou minha, o meu canto na cama. É só depois da casa inteira se arrepiar que eu consigo pensar “hm, isso é bom, esse lugar é bom, acho que já dá pra entrar e depois a gente vê como é que faz pra sair”.

São vinte dias de sono. Vinte dias esperando são vinte dias de sono. Depois que eu chego são dias de amnésia e meu pai me liga no último deles pra saber se eu tô vivo e eu preciso pensar pra responder, porque no fundo não importa.

Nada importa, na verdade. O que importa é que tu foi ao mercado mais cedo naquele dia e fez compras. Tu saiu de casa e foi até o mercado pra comprar pão-presunto-queijo-café-suco-de-laranja-bolo-doce-de-leite e essas coisas estão ali na tua casa me esperando junto contigo. O que importa é que tu pensou que meu voo chegaria quinze minutos antes do previsto e mandou mensagem já desesperada quinze minutos depois e precisou deitar um pouco pra se acalmar. O que importa é que, quando cheguei, tu estava de pijama. Que conseguiu arrumar a máquina de lavar enquanto eu estava fora, olhando pra porta.

E a cama. Porra, o que importa é a cama. Ainda que tu tenha ido comigo até o aeroporto naquela primeira vez, a sensação é de que eu tinha te deixado na cama, esperando esse tempo todo. E aí nós decidimos que não era importante sair da cama e passamos o tempo todo ali. E depois tu deita nua em cima de mim e eu sinto teu peso inteiro no peito de um jeito bom e falamos sobre tudo e o que é dito não importa, desde que seja dito, e tua voz não pare nunca e que a conversa faça vezenquando com que tu levante a cabeça pra me olhar melhor ou pra sublinhar alguma careta que esteja fazendo por conta de algo que eu disse.

É esse levantar da cabeça e são essas caretas e é o teu peso no meu peito que me alimentam enquanto estou longe e fazem com que, mesmo distante, eu queira falar contigo tanto quanto possível, sobre tudo. É é isso o que faz com que eu consiga me sentir tão perto de ti ao conversar por escrito. Sorte minha conseguir deixar incrustadas no córtex essas imagens e o teu cheiro e o teu peso exato no meu peito.

Ainda nua, deitada em cima de mim, e uma parte da tua história me tira o chão e eu boto o Kind of Blue pra tocar. E tuas costas nuas estão ao alcance da mão e enquanto eu volto pro lugar tamborilando os dedos na tua omoplata, acompanhando o trompete, depois o sax, depois o baixo, tu não diz nada e só fica ali pensando não sei em quê. E o disco começa e termina sem que ninguém diga nada exceto quando, tentando esconder o nervoso, eu comento qualquer coisa sobre quando fui ao show do Jimmy Cobb, mas tu continua a não dizer nada e eu continuo dedilhando nas tuas costas.

[edição da missiva à guria, publicada com edição alternativa no Epic Shit]

Filed under distância guria

0 notes &

OMAR: Buenos Aires role model

Conheci jornaleiro local que fala “um pouco” (um muito) de português e gostaria demais de dispor de tempo e dinheiro para estudar.

Omar, a partir de agora constante da lista já vasta de role models, falou de semiótica, de cultura, de gramática e de literatura. Falou também da origem do seu idioma, citando feitos e nomes e datas, mas não considero falar tanto quanto considero lecionar. Devido ao escasso tempo de que dispunha (o procurei querendo saber onde se poderia dispor de café y baño, borracho que estava de vinho), mencionei possibilidade de se acompanhar cursos na UCA como ouvinte, sem que se precisasse pagar por isso. Falamos muito sobre a graça que existe no caminho, independente de qualquer obtenção de diploma e/ou reconhecimento ou ainda e especialmente conclusão sobre o assunto estudado. Foi esse mesmo o gatilho para que Omar me contasse de sua falta de tempo. O velho tem 63 anos e também diabetes. Acorda cedo para cuidar de casa e estar na banca de jornal (que não é sua) às onze da manhã. Costuma chegar de volta em casa entre duas e três da matina. Não pode abrir mão do emprego porque depende dele para se sustentar. Omar estudou apenas até o segundo grau, mas se fez imenso (e a mim minúsculo) ao falar de seus interesses e leituras.

Gasta seu pouco tempo livre lendo ali mesmo na banca muito mais que autores. Quando falamos de Umberto Eco, me confidenciou que não liga muito para nomes tanto quanto para assuntos e preocupações e intenções. Omar sabe escolher o que ler, eu ainda não aprendi e vou por indicação. O velho me elogiou por parar e conversar mesmo que precisando muito encontrar um banheiro e disse que a maioria dos turistas pedem informações e sequer percebem que ele esboçou português ou inglês ou francês ou japonês ou RUSSO na resposta. Respondi que o grande problema da maioria dos turistas é serem turistas. Sabedoria de Omar o levou a responder que não é nem culpa deles não saber direito o que buscar no lugar que visitam. Não sabem, Omar. Nunca sabem.

Todos os visitantes de Buenos Aires deveriam ir até sua banca e parar pra conversar. Ela fica na Carlos Pellegrini 291. Quando cheguei era cerca de uma da manhã e já não havia muito movimento, logo poucas interrupções. Omar estava já prestes a encerrar o expediente. É bem do lado do Obelisco, nem tem como errar.

Omar inspira.

Filed under viagem platinismo

0 notes &

Ten, Pearl Jam

Pearl Jam - [1991] Ten

[texto originalmente publicado no Vitroleiros.org]

Quando me pediram pra escolher um álbum (um só, que é como me pedir pra escolher um órgão pra me sobrar no corpo) adorei a idéia. Cerca de quinze segundos depois minha vontade era dar com a cabeça de quem pediu na quina de alguma parede. Ou reproduzir a cena de ‘American History X’. Sim, aquela cena. Suponho que boa parte dos que atenderem ao pedido farão uma introdução parecida, mas acho importante fazer também, de modo que entendam de uma vez por todas que um pedido desses não se faz nem pro pior inimigo.

Dito isso, escolhi o álbum que mais ouvi. Não por ser o disco que mais amo, porque se fosse esse o critério ia gastar mais uns meses escolhendo e não sairia com texto nenhum. Era necessária uma lista que tivesse algum álbum no topo e odeio ordem alfabética, que não passa da eterna celebração da criança que aprende o alfabeto e repete pra mostrar a descoberta.

Ten. Posso assobiar todas as suas faixas. De trás pra frente. Debaixo d’água. E ainda assim não tenho muito o que dizer sobre ele. Na Wikipedia tem um monte de infos, ó só.

Pensei em fazer como o Renmero e contar uma história que de alguma forma envolvesse o disco. Não seria difícil. Amei ouvindo Ten, briguei, apanhei também, comprei meu primeiro ténis ouvindo Ten, com grana ganha trabalhando enquanto ouvia Ten. Cometi meu primeiro crime com Ten nos fones de ouvido. Destruí meu primeiro violão segundos depois de conseguir tocar Alive inteira pela primeira vez, sem o solo. Cantei Black no ouvido dela, no dela e no dela.

Quando éramos guris, o Dênis tinha um violão e não sabia tocar, mas aprendeu o baixo de Even Flow. Conseguia tocar e cantar ao mesmo tempo (eu ainda não consigo) e era tão idiota e cheio de clichês quanto eu. Depois de uma festa, voltando pra casa não lembro de quem, sentamos ao lado de Sêo Pedro e tocamos Even Flow, em dueto violão, violaixo e voz. Nem morador de rua ele era, mas pelo menos não entendia inglês. Sorriu feliz e voltou pra dentro da casa que estava reformando. Sêu Pedro deve estar até hoje com cara de WTF, mas sem clichê babaca não se faz um adolescente, então I’ve been there, done that.

Enfim, não vou escrever um texto em que a relação com o disco é TRICKY, mas também não vou contar uma história pra cada faixa. Nem lembro de todas as histórias pra poder contar, mas acredite: quando se ouve um único disco quase o tempo todo, se tem história pra cacete.

O ponto é que o disco não termina. Até hoje ouço inteiro esperando que o disco termine. Até prometo que I’ll hold the pain, release me, mas it doesn’t and it goes right back to Once upon a time. Estou preso no repeat desde moleque.

O leitor que é mais babaca vai notar que não mencionei todas as faixas do disco, mas adianto que não sei falar de música. “Writing about music is like dancing about architecture – it’s a really stupid thing to want to do.”
–Elvis Costello (thank you NIGGA* for giving me the perfect quote).

Se toda a história da indústria fonográfica estivesse a ponto de ser destruída e coubesse a mim escolher um disco pra salvar, seria o Ten. Não é me gabar, a ideia não é na esperança do mundo viver como eu vivi, é que a única vida que conheço é a minha e se ela foi boa o bastante em seus altos e baixos até o momento, foi em parte por conta desse disco. Ou no mínimo sob sua supervisão numa grande porção do tempo.

Já disse que sou cheio de clichês, então cabe um aviso: Erros de digitação, gramática ou qualquer outra coisa que passaram batidos foi porque parei a revisão quando terminou Master/Slave. Nada mais clichê que usar só o tempo do disco pra escrever sobre ele e revisar.

Filed under música grunge

0 notes &

John Pizzarelli’s stand up comedy

Estive no Pizzarelli. O homem era maior que o palco. Nos intervalos entre uma sequência de excelentes músicas — dele ou de Duke Ellington, em homenagem a quem gravou disco recente — e a próxima, John falou o pouco que sabia falar em português, incluindo a sentença “ta na pwraia, ta wredoundo”. Contou também de sua guitarra, uma sete cordas afinada em A, e de como isso tornava supérflua a presença do baixista — Martin, seu irmão.

Em outra de suas conversas com o publico que assistia em silêncio quebrado apenas para aplauso ao fim de musicas e solos — entre eles um em que Pizzarelli esmerilhou um two hand tapping que até agora não entendi direito — convidou a todos para ir vê-los em Paraty, onde tocariam na semana seguinte. Complementou o convite com um ítalo-americano “We’ll drink, we’ll swim, it will be BEAUTIFUL.”

O homem mandou um Beatles medley que quase provou completamente dispensável banda inglesa, muito aplaudido. Depois disso contou que era de New Jersey — comparando o lugar a Campinas — e começou a tocar “I like Jersey best” e o fez imitando Paul Simon, Bruce Springsteen, Bob Dylan, Beach Boys, Billie Holiday (que não por coincidência era idêntica à sua versão de não me lembro quem, mas acho que Madeleine Peyroux), Lou Reed, James Taylor, The Police, The Who, Johnny Cash, entre outros que não me lembro. Finalizou sua grande piada com a versão de João Gilberto para a música. Essa eu mal consigo descrever, então deixo só um quote: “The light… I can hear it, turn it down.” Era como se John tivesse ido almoçar na casa dos tios carcamanos num domingo e todos ali estivessem assistindo enquanto ele tocava para alegrar os avós. Não importa se ele faz isso sempre.

Encore: “Só danço samba” FODA cantada em português, “Girl from Ipanema” que ele fez virar “Garota de Ipanema” no finalzinho e entregou a cantoria para o público e uma “Johnny One Note” que foi muito bem usada pra dar vez aos solos de piano e de bateria.

Saindo do lugar vi o filho do homem, que falava sobre como gosta de ver as apresentações do pai e como ele transformava a coisa num show de humor. The boy had his groupies, fui embora. Não sem antes pedir pra uma das gurias penduradas no filhotão tirar uma foto.

Filed under jazz música

0 notes &

Jazz with Bass on Top

Paul Chambers - [1957] Bass on Top

Peguei o “Bass on Top”, disco do Paul Chambers, o cara do baixo no “Kind of Blue” AND no “Giant Steps” AND no “Cool Struttin’.” Já tinha ouvido falar que “Mr. PC” era para ele, mas só pouco tempo atrás um amigo me falou do “Bass on Top” e resolvi ir atrás do disco.

Há algum tempo eu já havia decidido que gostava mais da conversa do baixo com o instrumento principal do que do walking bass puro. Bass on Top é um disco todo com as melodias conduzidas pelo contrabaixo, que também assume a maior parte dos solos. Paul Chambers consegue ser devastadoramente dramático com o arco logo na primeira faixa, “Yesterdays,” pra depois te acalmar no pizzicato — bela palavra, usarei ao menos uma vez ao dia —, em “You’d Be So Nice To Come Home To”, que eu só conhecia na voz do Sinatra.

Depois uma sequência de músicas que eu já tinha visto no repertório de Miles Davis e que soam especialmente deliciosas tendo como lead o baixão: “Chasin’ the Bird,” “Dear Old Stockholm” e “The Theme.” Primeiramente, achei que tinha encontrado algo de Miles. Talvez nas primeiras audições eu esperasse um pouco do impacto que me causou o dueto de Chambers com Evans, logo no início de “So What”. Relendo e reeditando o texto, ouvindo novamente, concluí que não sei ouvir jazz e decidir algo sobre. Jamais saberei.

“Bass on Top” é um disco essencialmente quieto. Só baixo, piano, guitarra e bateria. Não consegui nem sentir falta da cornetaiada. Parte disso é culpa do Kenny Burrell, guitarrista que comecei a ouvir pelo “Midnight Blue” (disco referência da Blue Note sabor carne) e não parei mais de procurar. Burrell é co-responsável por “Chamber Mates”, composta junto com Chambers, que fecha o disco deixando como única opção possível voltar para a primeira faixa e ouvir mais enquanto se lista e baixa todas as gravações de Paul Chambers a partir dali.

O grande problema de descobrir um disco desses aos vinte e seis anos é que , em um cenário otimista, se dispõe de apenas mais uns cinquenta para gastar ouvindo.

Filed under música jazz