Acordei tarde e tomei um café da manhã com a tia, que almoçava. Durante a refeição heterodoxa, fui perguntado sobre a tal social media e me senti importante, tendo inclusive aplicado leve forçação de barra num tímido esforço de venda pra ver se tirava uns caraminguás a mais na agência. Quando o assunto ficou no jeito de recitar o lero-lero que circunda os diferenciais do social enquanto mídia, apliquei um glorioso Luiz Antonio Galebe e mandei ver no argumento, interrompido apenas para um mepassosal e dois nãoquersalada.
Rumei para a Cultura do Conjunto Nacional, buscar livro que encomendara e depois vim a descobrir que não existia mais no mercado livreiro. Sem saber, peguei um dos últimos disponíveis. Tinha marcado com um comparsa de ver o pouco que sobrou do Buena Vista Social Club e o SMS já apitava impaciente desde horas antes, quando recebido, alertando a iminência do acontecimento com cinco horas de antecedência e resumindo planos sobre como e quando. Precisava obter o livro antes, sabia que seria oprimido pelas estantes e gastaria a uma hora mínima browseando ali, então evitei responder muito além de “estarei lá.”
Livro pego e pago, tomei um café mais breve do que deveria com um casal de amigos que estava nas redondezas, durante o qual foram discutidos assuntos diversos, o mais peculiar deles tendo sido o futuro do bem-casado. Descobri que a receita só permite que sejam feitos cerca de vinte docinhos por batedeira, sendo esse o gargalo da produção e Fernanda seria capaz de produzir muitos mais caso tivesse uma boa meia-dúzia do maquinário. Parece também que o preparo envolve um bom passeio enquanto a massa toma jeito na geladeira, então Fernanda praticaria rolês com o amigo Gustalves mais tranqüila de ter menos saborosos a fazer na volta, num cenário em que a escassez de batedeiras fosse um problema menor. Descobri também haver maneira de fazê-los que não envolve cortar a massa, fazendo assim com que os benditos fiquem mais cheios de graça. Não me lembro a técnica por ter sido abordada muito por alto e nem estou bem certo se entendi direito a parte de não envolver o corte, portanto me ignore o comentário. Apitou um SMS avisando a localização inexata do comparsa e sua guria — um bar na General Osório —, a atividade sendo executada nas imediações — uma roda de samba — e a cor das paredes externas — amarelas. Informações essas acompanhadas de um bom imperativo — VEM!.
Tomei um táxi com cheiro de madeira e motorista que ostentava quepe com os dizeres Chauffeur de alguma coisa que não consegui ler pelo retrovisor. Quando atingimos a Rio Branco, o chauffeur disse “Aqui é O Fim”, causando pequena comoção rapidamente eliminada com uma consulta ao mapa no celular, onde verifiquei estar apenas alguns passos distante de onde deveria estar, sendo o fim apenas conta das ruas estarem todas fechadas e só se poder passar a pé.
No breve caminho, um hobo — nicho da mendicagem paulistana cheio de estilo que usa poncho — me pediu um cigarro. Dei logo dois, ao que fui reverenciado como grande truta. Aconteceu também de outro SMS apitar, informando estarem eles agora embaixo do relógio, na frente da câmera. Por conta disso parei um marronzinho — denominação paulistana para os funcionários da Companhia de Engenharia de Tráfego — e perguntei do que se tratava “o relógio” e se existia mesmo uma câmera. Tendo ele confirmado tudo, pedi instruções do caminho até lá e as segui minuciosamente (“Só ir reto que você vai ver”).
Ao chegar fui confrontado com um problema imenso: tinha muito mais gente ali. Previsava dar jeito de localizar o casal, de modo que subi num gelo bahiano (ou seria baiano?) e mandei SMS para o comparsa solicitando o levantamento e sacudir dos braços de forma frenética. Na ausência de resposta, tentei atravessar a multidão a fim de chegar mais perto da câmera. No caminho ouvi toda sorte de impropérios, como é natural a quem tenta atravessar qualquer aglomeração, seja para se aproximar, para se afastar ou para se deslocar lateralmente a qualquer que seja a coisa à frente dela. Cheguei na câmera e não havia comparsa algum. Deixei a esperança ir embora sozinha enquanto me preparava para arriscar um caminho de volta para onde havia ar. Sociofobia, sacomé.
Andei até o que achava ser a metade do caminho de volta e fiquei preso, não dava mais. Se eu tentasse qualquer movimento, provavelmente alguém na borda da multidão cairia e seria pisoteada. Quiçá a borda toda, caindo fileira a fileira até que não sobrasse mais ninguém. Querendo evitar a tragédia, fiquei parado ali mesmo e guardei o sofrimento só pra mim. Me sentia o próprio Atlas. Em dado momento um gordo apareceu querendo muito sair dali, seu semblante de frustração me fez pensar que ele tinha constatado o mesmo que eu, que ele estava certo de que sua caminhada acabaria matando gente demais pra valer a pena. Mesmo assim ele andou. Talvez fosse mais egoísta que eu, talvez meu olhar esperançoso lhe tenha conferido alguma dose de confiança. Jamais saberei.
O gordo começou a andar e quando passou por mim, entrei no vácuo — aquele mesmo que os motociclistas aproveitam em estradas, quando atrás de um caminhão que segue na mó vula. Há de se amar os gordos querendo muito sair de multidões. Eles abrem bom espaço e dá até para você acender um cigarro ou espreguiçar-se enquanto os segue. Acabou que em algum ponto do caminho o gordo fez uma curva brusca para a esquerda e, como mágica, ao sair da minha frente expôs o comparsa e sua guria, ainda inédita para mim, por isso me apresentei primeiro e depois saudei o amigo como se ele fosse o penúltimo homem do mundo. Findado o abraço, ainda estavam lá os outros homens e mulheres todos, então era melhor que eu arrumasse um lugar em que coubesse.
Barbarito mandou benzasso e gostamos do show, o que não nos impediu de sentir falta de La Bayamesa. Fomos buscar uma cerveja no bar na General Osório, o amarelo com roda de samba, e quase ficamos, mas havia ainda outra combinação e tomamos o rumo da casa do índio.
No caminho discutimos coisas muitas, dentre as quais destaco a história do Silva. O Silva, apesar de ter sido apenas mais um entre muitos cuja estrela não brilhava, tinha a canção de funk feita em sua homenagem sendo tocada, no vagão em que estávamos, por um sanfoneiro. Foi preciso um bom esforço pra remover o earworm ao sair do transporte.
Índio queria comer japonesa, mas o comparsa temia as iguarias, então decidimos nos empapuçar com o excelentíssimo Oswaldo Aranha do Pirajá. Não sem antes longa e detalhada argumentação minha em prol da bisteca saurina servida no Sujinho, prato esse que era assunto na troca de mensagens desde a noite anterior. Conheci também Najláhijas — não sei escrever nem pronunciar seu nome ainda, mas garanto que é belo nome e em nada parecido com a injustiça que cometi ali —, sobre quem contarei mais adiante.
Durante a caminhada até o recinto, contei de como aquele trecho sempre fora para mim uma grande dungeon e que seria bom vencê-lo sob a luz da sobriedade para memorizar o caminho. Falou-se também de séries e da difícil tarefa de batizar o carro novo do comparsa. Arriscou-se um nome, mas não colou muito por conta da linha criativa adotada, uma mistura das letras contidas na placa do veículo com o grande seriado do momento, Treme, que conta muito do que importa saber enquanto mostra uma New Orleans três meses depois do desastre todo. Grande série. Reclamou-se também de como sempre que se quer atravessar uma avenida de forma transgressora (fora da faixa) há algum carro vindo devagar, gerando tensão capaz estragar tudo ou minar a elegância do ato exigindo uma corridinha. Notei que o carro em questão era conduzido por uma mulher balzaca que arriscava besuntar os lábios de batom enquanto em trânsito. Lembrei que quando eu dirigia, nem música podia haver. Congratulei a dona em pensamento, ninguém mais pareceu notar.
Os garçons paulistas do Pirajá, uma ode cara em demasia ao boteco carioca, representaram muito bem o característico desprezo pela praticidade dos garçons homenageados ao tentar espremer a nós cinco em uma mesícula quadrada mais ou menos do tamanho de um azulejo. Sorri pensando na cidade maravilhosa e apontei uma seqüência enorme de boas e espaçosas mesas que estavam livres bem ao lado dessa. O garçom demonstrou uma leve surpresa e nos acomodou em duas das mesas maiores, depois de juntá-las. Enquanto nos sentávamos, fez um breve discurso sobre como ali estaríamos mais tranqüilos e espaçosos e à vontade, fazendo parecer dele a idéia de mudarmos para lá. Eu como não tinha muito apego a ela, deixei que ele levasse a glória da decisão. Nem eu nem ele fomos parabenizados pela genialidade.
Descobri que tanto índio quanto o comparsa possuem o hábito de trocar correspondências com ídolos, prática que comparei às cartinhas enviadas para a Xuxa e por conta disso tomei grande lição ao saber que índio já havia sido respondido por sujeitos como Rollins e Ellis. Com isso, prometi que mandaria a Cormac McCarthy, mas recebi reprimenda alertando que estava almejando demais. Fiquei pensando qual seria a boa métrica para saber se eu já estava no ponto de tentar troca de correspondências com determinado ícone. Deve haver algum multiplicador que você deva usar em formula envolvendo sua idade e a do ídolo, o número de boas perguntas que você tem a fazer e quantos elementos diretamente relacionados ao destinatário influenciaram significativamente a sua vida. Nunca nem mandei cartinhas à Xuxa e esses caras estavam ousando níveis elevadíssimos como Jon Stuart! Estou bem atrasado nesse jogo de contabilizar correspondências trocadas, mas me alegrou ter gaguejado em conversa brevíssima, porém cara-a-cara, com Jimmy Cobb.
Na volta o comparsa e índio constataram a natureza humana toda quando as gurias iam mais adiante e falaram um pouco sobre isso.
Chegados de volta, o assunto me fez pensar que deveria tirar da mochila o livro e falamos um pouco sobre ele. Depois disso quem regeu como um paul mauriat o fluxo da conversa toda foi Nahuájlidas, em especial quando me perguntou se eu já havia lido Jimmy algo. Respondi que não e ela saiu da sala. Logo quando eu pensava ter ofendido a moça, ou no mínimo ter me provado indigno de sua atenção ela voltou com o tal Jimmy (que era Corrigan). Tratava-se de uma obra de quadrinhos que folheei rapidamente, mas gravei apenas um comentário de alguém sobre ser Ulysses em HQ, comentário esse que não me lembro se piada ou não. Vou ter que ir atrás da peça, só pra entender qual foi a associação que motivou Nahijavilas a me recomendar o petardo.
Exaltamos também a genialidade da medicina como um todo quando o assunto esbarrou na bulimia. Parece que há um sinal na anamnese — nunca tive oportunidade de usar o termo e espero ter feito certo — em que se pode dizer se alguém sofre da doença ao notar marca de dente nas costas da mão da pessoa. O assunto começou pela inveja que tenho de gente que consegue ler em ônibus, mas Mari passava mal só de estar dentro do metrô quando mais nova e precisava parar de estação em estação para levar o passar mal às vias de fato e Nadjáya só conseguia curar suas dores de cabeça ao vomitar, coisa que para ela era muito dificil, então o assunto chegou em técnicas de vomitório, o que trouxe à pauta o “rolê da bulimia”, gíria engenhosamente empregada por Nadyahida e que nos fez rir um tempo. Mas então soubemos que ela havia uma vez bebido um litro de detergente no intuito de fazer a maior bolha de sabão do mundo, todavia ao invés de apenas molhar o canudo no composto resolvera sugar e aparentemente esquecera-se de estar sugando ao ver as nuvens no céu e continuara sugando então passou mal. Na verdade não sei se passou mal, pois quando contei de um amigo que bebera fluido de isqueiro ao tentar cuspir labareda de fogo ela se lembrou da The Clock e nos contou do neonazi com quem saíra uma vez e depois lembrou-se de um amigo que era punk e foi preso mas solto por um delegado que o confundira com skinheads com cuja causa simpatizava, o que nos levou a saber sobre o preconceito sofrido pela gente do sudeste em alguns lugares do nordeste e também da corrupção e coronelismo ainda existentes em determinados cantos de lá. Queria ter lembrado de tudo, haja visto que foi uma das conversas mais pitorescas que já tive em toda a vida, mas fica a amostra e a constatação de que Nadya é grande interlocutora, especialmente quando somada a Mari e comparsa. Índio há muito dormia e não contribuiu em nada para o falatório.
Quando infelizmente o sono começava a nos vencer, saímos e descemos a rua para esperar passar um táxi. Eu insisti que seria fácil conseguir um quando o comparsa sugeriu solicitar um por telefone, então me senti cheio de culpa quando ao chegarmos na rua de baixo notei apenas desolação e que haviam desligado até mesmo a lei, pois os semáforos só faziam piscar em amarelo. Portanto, tratei de ligar logo para o ponto e fui atendido por um taxista meio carente e melodramático que não nos queria vir buscar temendo o abandono. Jurei fidelidade e ele acabou convencido.
O trajeto para casa não merece destaque algum exceto pelo breve engarrafamento enfrentado em frente a um pub, onde alguns veículos encontravam-se imóveis e completamente isentos de quaisquer motoristas no espaço por onde os carros deveriam passar. Com pesar, me despedi de Mari e do comparsa, esperando pela combinação da bisteca.